Em um cenário político marcado por cifras bilionárias e acusações de uso eleitoreiro do Orçamento, surge uma candidatura que se propõe a ser diferente. O médico Antônio Barros, 55 anos, pré-candidato ao Senado pelo Partido Novo no Piauí, lançou seu nome à disposição do eleitorado com uma plataforma ancorada na independência, na prevenção às drogas e na crítica frontal ao que ele considera o desvirtuamento da função parlamentar.
“Estou colocando meu nome como outra opção nesse cenário político tão conturbado do país e do Piauí”, afirmou Barros em entrevista ao jornalista Luiz Brandão no estúdio do portal Piauí Hoje.
Embora seja um nome novo na disputa eleitoral — ele se considera “não político” — Antônio Barros carrega a política no sangue. Filho de uma família tradicional no estado, seu pai, Barros Araújo, foi deputado e conselheiro do Tribunal de Contas do Estado - TCE, e seu irmão, Kennedy Barros também já foi deputado e é o atual presidente do TCE/PI.
“Minha família está há mais de 30 anos que se distanciou da política. Eu mesmo, o primeiro partido que eu estou filiado é o Partido Novo. Então eu posso me considerar assim, não político, embora tenha essa história familiar”, explicou.
O médico, que está próximo da aposentadoria, planeja se ausentar das atividades profissionais apenas durante o período de campanha. “Para mim é uma tranquilidade”, resume.
A grande bandeira: prevenção às drogas
Há 20 anos, Antônio Barros atua como voluntário em um trabalho de prevenção ao abuso de álcool e outras drogas — iniciativa que hoje está presente em todos os estados brasileiros e em 11 países. Essa será sua principal bandeira na campanha.
“O álcool, o abuso de álcool e outras drogas é uma das grandes mazelas do país e da humanidade, que causa tanto sofrimento a tantas famílias”, declarou.
O pré-candidato também defende a inclusão dos jogos eletrônicos e de azar como drogas comportamentais. “O conceito de droga é algo que causa dependência e pode causar prejuízos em todos os aspectos da vida. Os jogos estão incluídos, causam tudo isso”, afirmou, citando estudos que apontam que o vício em jogos chega a alterar a química do cérebro.
Segundo o médico, há famílias no Piauí que gastam de 10% a 30% da renda familiar com bebida alcoólica, o que agrava o endividamento e a vulnerabilidade social.
Independência e crítica ao “desvio de função” no Senado
Barros se define como centro-direita, mas faz questão de se distinguir do chamado “centrão”. “Eu não concordo com o centrão, que é puxar os acordos para um ganho financeiro e uma série de interesses pessoais”, critica. “O centro que traz ponderação e equilíbrio, eu vejo com bons olhos.”
Sua principal crítica ao Congresso Nacional — e especificamente ao Senado — é o que ele chama de desvio de função dos parlamentares. Ele cita o valor bilionário das emendas parlamentares como um dos problemas centrais.
“Cada senador tem direito a R$ 70 milhões por ano de emenda parlamentar individual, além das emendas de bancada. Essa emenda parlamentar, para mim, é um desvio de função. O senador deveria fiscalizar o uso dessas verbas, e não gerir dinheiro”, afirmou.

Campanha modesta
Diferente da maioria dos concorrentes, Antônio Barros afirma que fará uma campanha modesta, baseada em autofinanciamento em pequena escala e doações de apoiadores pessoa física, sem recorrer a grandes grupos econômicos.
“Geralmente campanhas têm três maneiras de captar recursos: fundo partidário — que é desproporcional e desequilibra a democracia —, emendas parlamentares — dinheiro público usado de forma distorcida — e doações de grupos econômicos, que muitas vezes vão cobrar interesses depois”, enumerou.
Para ele, a solução passa por uma reforma política ampla, incluindo a possibilidade de candidaturas avulsas e o repensar do financiamento público de campanhas.
“O que é o teto? O teto já concede um salário digno, maravilhoso dentro da realidade brasileira. Se a pessoa quiser ganhar mais que isso, vá para a iniciativa privada”, defendeu, criticando os altos salários e penduricalhos do funcionalismo público.
Reforma política em debate no Congresso
A defesa de Barros por mudanças estruturais encontra eco no atual momento do Legislativo. A Câmara dos Deputados está na reta final da votação da reforma política (PEC que altera as regras eleitorais e partidárias). Entre as propostas em análise estão o fim da reeleição, mandato de cinco anos para todos os cargos eletivos e novas regras de fidelidade partidária.
Especialistas apontam que o sistema atual favorece a baixa renovação parlamentar e a reeleição em massa, justamente pelo acesso desigual a recursos públicos.
O que propõe Antônio Barros
· Mais independência política, com candidatos não compromissados com grupos econômicos ou políticos
· Políticas públicas de prevenção ao álcool, outras drogas e jogos eletrônicos
· Fim do desvio de função dos parlamentares, com senadores fiscalizando, não gerindo recursos
· Reforma política com candidaturas avulsas e novo financiamento de campanha
· Combate ao radicalismo e fortalecimento do centro como espaço de ponderação
“Os grandes cargos da República, em todas as instâncias, devem ser um sacerdócio. A pessoa deve ganhar bem, claro, mas o teto já concede um salário digno”, reforçou.
A entrevista
A seguir a íntegra da entrevista do médico Antônio Barros ao jornalista Luiz Brandão.