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DA EJA À EPAI

A retaguarda da revolução educacional no Piauí

Por Antonio José Medeiros

Segunda - 06/04/2026 às 19:28



Foto: Assessoria Seduc Alunos se orgulham da escolas públicas do Piauí
Alunos se orgulham da escolas públicas do Piauí

A revolução educacional no Piauí e no Brasil só se completará quando a totalidade da população piauiense e brasileira estiver cursando ou tiver cursado a educação básica - da creche ao ensino médio, e na idade certa de 7 meses a 17 anos, em escolas com ensino de qualidade. Essa revolução terá um êxito maior se 70% da população conseguir cursar a universidade.

Revolução é a intervenção política num processo histórico para acelerar seu ritmo e romper seus bloqueios estruturais, de modo a criar uma normalidade por um longo período. Gostaria que essa revolução se completasse em 20 anos (até 2046), mas a priorização da educação precisaria ter mais ação e menos retórica.

Praticamente universalizado o atendimento escolar, a vanguarda da revolução educacional é a escola em tempo integral e a educação profissional de nível médio; bem como, a priorização da pesquisa e da extensão-cooperação técnica nas universidades públicas e privadas.

A retaguarda da revolução educacional é a alfabetização de jovens (19 a 29 anos), adultos e idosos e, evidentemente, a ainda chamada EJA – Educação de Jovens e Adultos.

Saíram os dados finais do Censo Escolar de 2025. Em geral os dados definitivos não mudam muito; apenas corrigem números reclamados por alguns estados ou municípios. A Portaria MEC Nº 844, datada de 22 de dezembro de 2025 (dentro do ano do Censo, como exige a lei) foi divulgada no final de janeiro de 2026.

No Brasil, a matrícula em EJA Ensino Fundamental é de 1.204.640; e a matrícula em EJA Ensino Médio é de 580.912 alunos. No Piauí, a matrícula em EJA Ensino Fundamental, a quase totalidade nas redes municipais, é de 74.366; e a matrícula em EJA Ensino Médio, a totalidade na rede estadual, é de 20.423 alunos.

É uma matrícula muito pequena, tanto no Brasil como no Piauí, sobretudo se consideramos o número de pessoas de 16 anos e mais que não concluíram o ensino fundamental ou o ensino médio.

Os dados do grau de instrução no site do TSE ou TRE-PI são os mais atualizados. Considero aqui só os dados para o Piauí: analfabetos - 214.552 (8,34% dos eleitores, todos maiores de 16 anos); lê e escreve - 365.849 (14,21%). O TRE (ou TSE) inclui nessa última categoria aqueles que assinam o nome no título. A metade pode ser considerada analfabeta. É uma boa referência do público-alvo dos programas de alfabetização.

Aqueles que têm o ensino fundamental incompleto são 601.322 pessoas (23,36% dos eleitores). É público-alvo da EJA ensino fundamental. Ora, a matrícula em EJA ensino fundamental, no Piauí, em 2025, foi de 74.366 alunos, ou seja, 12,36% da demanda potencial. Atenção Municípios, APPM, UNDIME e Secretarias Municipais de Educação: ainda é possível fazer busca ativa para a matrícula em 2026!

Aqueles que têm o Ensino Fundamental Completo são 143.842 (5,59%); e os que têm ensino médio incompleto são 419.709 (6,31%), totalizando 563.551 pessoas. É o público-alvo do EJA ensino médio. Ora, a matrícula em EJA ensino médio em 2025, no Piauí, foi de 20.423 alunos, ou seja, 4,3% da demanda potencial.

Sei que no Piauí a matrícula de EJA sobre o total da matrícula geral na educação básica é a maior do Basil. E sei que somos o campeão em matrícula em tempo integral e em educação profissional no ensino médio. Mas, não vamos perder a Revolução Educacional que está sendo feita na vanguarda, pelo “esquecimento” da retaguarda. Que 2026 seja ano de aceleração de EJA!

Os dados do TSE se referem a pessoas com 16 anos e mais, quando a EJA se dirige às pessoas de 18 anos e mais. Mas, usei esses dados porque são mais atualizados. E vejam que não considerei os que “lêem e escrevem” como público-alvo de EJA, mas da alfabetização.

Apenas para matar a curiosidade: a tabela do TRE-PI também informa:  têm ensino médio completo - 530.223 (20,6% dos eleitores); ensino superior incompleto - 106.818 (4,15%); e ensino superior completo - 191.493 (7,44%). Por aí vemos ao mesmo tempo o avanço e a demanda potencial por ensino superior.

Analisando os dados em nível de município, alguns desafios se mostram de maneira mais clara. Apenas um município não fez nenhuma matrícula em EJA na rede municipal e estadual, e no ensino fundamental ou ensino médio, em 2025: Bela Vista do Piauí.

Todos os demais municípios ofereceram EJA ensino fundamental, seja na rede municipal, seja na rede estadual. E 13 municípios não ofereceram ensino médio na rede estadual: 1) Bertolínia, 2) Cajueiro da Praia, 3) Francisco Ayres, 4) Jatobá do Piauí, 5) João Costa, 6) Massapê do Piauí, 7) Monsenhor Hipólito, 8) Pau d’Arco do Piauí 9) Pedro Laurentino, 10) Prata do Piauí, 11) São João da Canabrava 12) São João da Varjota 13) Várzea Branca.

Do ponto de vista quantitativo, a alfabetização e a complementação da educação básica por aqueles que não a cursaram na idade adequada é o maior desafio educacional do país e dos estados e municípios da federação.

O enfrentamento do analfabetismo entre os adultos é tema da agenda educacional brasileira, há várias décadas. E todo ano o IBGE publica o resultado da PNAD-Contínua sobre a taxa de analfabetismo nos estados. É um momento breve em que se alimenta o debate na imprensa. Em 2024, a taxa de analfabetismo de adultos no Piauí foi de 13,8%; os dados de 2025 devem sair em abril ou maio de 2026.

Menor atenção tem recebido a complementação da educação básica pelos novos e antigos alfabetizados que não tiveram oportunidade de concluir na idade adequada ou com alguma distorção idade/série o ensino fundamental e o ensino médio. Os números para o Piauí foram mostrados acima.

Os teóricos da educação e educadores brasileiros “normalizaram” a EJA. Ora, a necessidade de EJA expressa uma situação de desigualdade social. Como tal, deve ser tratada como compensatória (supletiva) e deve ser extinta com o tempo. Numa sociedade desenvolvida e justa, a demanda de uma educação supletiva deve ser residual.

Temos que nos preparar para o final da modalidade de ensino EJA. Sobretudo o “J” de Jovens deve ser excluído da sigla, o mais rápido possível. Temos que caminhar para a “Educação Permanente de Adultos e Idosos” (EPAI), uma sigla que soará mal até a gente se acostumar com ela.

A versão mais recente do artigo 37 da LDB já aponta nessa direção: “A educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos nos ensinos fundamental e médio na idade própria e constituirá instrumento para a educação e a aprendizagem ao longo da vida”.

É preciso ir “desnormalizando” a EJA. O artigo 38 diz: “Os sistemas de ensino manterão cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular.” E mais: no § 2º do mesmo artigo 38: “Os conhecimentos e habilidades adquiridos pelos educandos por meios informais serão aferidos e reconhecidos mediante exames”. A EJA deve ter um currículo criativo, sem querer mimetizar o ensino regular. Adulto e idoso não são crianças ou jovens; têm conhecimentos e saberes que correspondem até mais adequadamente ao que a vida e a cidadania exigem.

Os países mais desenvolvidos já estão fazendo isso. Para o magistério, mesmo no Brasil, já existe a chamada “formação continuada”. As mudanças tecnológicas estão a exigir cada mês mais atualização de conhecimentos. E cresce também o número de pessoas, em especial os mais idosos, que demandam pela formação e prática de “atividades prazerosas”: pintura, instrumentos musicais, artesanato, informática e filosofia, história, inglês, mandarim, etc., etc.

Eis aí um campo em que o Piauí poderia também ser pioneiro e inovador em sua Revolução Educacional.

Acesse o Link para ver a tabela

2025 - Censo Escolar Final completo- PIAUI.pdf

Antônio José Medeiros

Antônio José Medeiros

É sociólogo, professor aposentado da UFPI. Licenciado em Filosofia pela UFPI e Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP. Foi professor em escolas estaduais de nível médio do Piauí, em 1968 e 1971 e na UERJ e Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, em 1973 e 1974. Trabalhou como técnico sênior na CEPRO/SEPLAN-PI e coordenou o Setor de Educação do Polonordeste na SEDUC-PI, de 1978 a 1980. Professor concursado da UFPI, onde trabalhou de 1981 a 2007.
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