O Brasil registrou, em 2025, o maior número de denúncias de trabalho escravo ou em condições análogas à escravidão desde o início da série histórica. Ao todo, foram contabilizadas 4.515 denúncias ao longo do ano, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, um aumento de 14% em relação a 2024, quando o país já havia atingido um recorde. Somente em janeiro de 2025, o Disque 100 recebeu 477 denúncias, o maior volume mensal desde a criação do canal, em 2011.
Nesse cenário nacional de crescimento das notificações, o Piauí aparece com 17 empregadores incluídos na chamada lista suja do trabalho escravo, divulgada semestralmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego. O número é cerca de 47% menor do que o registrado na atualização anterior, quando o estado tinha 32 nomes na relação. Dos atuais empregadores piauienses listados, apenas dois foram incluídos na última atualização.
Trabalhadores sofem com jornadas exaustivas, condições degradantes, servidão por dívida e restrição de liberdade
Em todo o país, a lista reúne 690 empregadores, sendo que 159 foram incluídos recentemente, um aumento de 20% em relação à lista anterior. No Piauí, os 17 empregadores foram flagrados submetendo 170 trabalhadores a condições análogas às de escravo, principalmente em atividades ligadas a carnaubais e pedreiras, mas também em fazendas e no trabalho doméstico.
Os casos no estado foram registrados nos municípios de Jerumenha, Eliseu Martins, Batalha, São João da Serra, Currais, Monte Alegre, Regeneração, Gilbués, Teresina, Piripiri, Amarante, Altos, Rio Grande do Piauí, Cajueiro da Praia e Itainópolis. As inclusões mais recentes ocorreram em Altos e Currais, ambas relacionadas a pedreiras, onde dois trabalhadores foram resgatados em cada local.
O procurador do Trabalho Edno Moura, coordenador regional de Combate ao Trabalho Escravo do Ministério Público do Trabalho no Piauí, explica que os nomes dos empregadores permanecem na lista por dois anos e sofrem uma série de restrições, como a proibição de obter financiamentos e acessar recursos públicos. Ele destaca que a inclusão não substitui ações penais e cíveis, já que o crime de trabalho análogo à escravidão prevê pena de reclusão de dois a oito anos, além de multa.
Em 2025, o Piauí encerrou o ano com 28 trabalhadores resgatados desse tipo de exploração. Uma das principais ações ocorreu no município de Palmeira do Piauí, onde uma operação conjunta do Ministério Público do Trabalho e do Ministério do Trabalho e Emprego libertou 23 trabalhadores submetidos a condições degradantes na catação de raízes em uma fazenda de soja. Em novembro, outros cinco trabalhadores foram resgatados em uma pedreira em Caldeirão Grande do Piauí.
Fora do Piauí, os trabalhadores estavam na construção civil, extração de palha de carnaúba e obras de usina de etanol
Além dos casos registrados dentro do estado, trabalhadores piauienses também foram resgatados em outras unidades da federação, como Ceará, Maranhão, Bahia e Mato Grosso, em atividades que incluíam construção civil, extração de palha de carnaúba e obras de uma usina de etanol. No Piauí, denúncias podem ser feitas de forma anônima ao Ministério Público do Trabalho, pelo site oficial do órgão, por WhatsApp ou pelo Sistema Ipê, plataforma mantida pela Secretaria de Inspeção do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho.
Dados nacionais
De acordo com dados do Ministério do Trabalho, somente em 2024, 2.186 pessoas foram resgatadas de situações de trabalho análogo à escravidão no Brasil. Desde 1995, quando o país reconheceu oficialmente a existência desse tipo de crime, cerca de 65,6 mil trabalhadores já foram libertados em mais de 8,4 mil ações de fiscalização.
As autoridades destacam que o aumento das denúncias reflete tanto a persistência do problema quanto o fortalecimento dos canais de denúncia e a maior conscientização da população.
A escalada dos registros fica evidente na comparação histórica:
- Em 2021, foram contabilizadas 1.918 denúncias;
- Em 2022, 2.084;
- Em 2023, 3.430; e,
- Em 2024, 3.959.
Fonte: Ministério Público do Trabalho do Piauí e Ministério do Trabalho
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