Artigos & Opinião

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SAÚDE MENTAL

Janeiro Branco em Vermelho: quando o cuidado com as mulheres é resistência

Por Yasmin Lyra Sousa (*)

Sexta - 09/01/2026 às 21:08



Foto: Divulgação O combate à violência contra as mulheres é uma emergência no Brasil
O combate à violência contra as mulheres é uma emergência no Brasil

Janeiro Branco nasceu como um convite coletivo para falar de saúde mental, para romper silêncios, para entender que ninguém adoece sozinho e que o cuidado não pode ser individualizado quando as violências são estruturais. Em 2026, esse convite chega manchado de sangue. Não é força de expressão. É constatação. Em apenas sete dias, 21 mulheres foram assassinadas no Brasil. Vinte e uma vida interrompida em uma única semana. Vinte e uma histórias que não chegaram ao segundo mês do ano. Vinte e uma mulher que tinha nome, família, desejos, medos, rotinas e sonhos. O Janeiro Branco, que deveria ser espaço de escuta e acolhimento, começa como um grande velório coletivo, porque falar de saúde mental das mulheres, hoje, é falar de sobrevivência.

Não existe saúde mental possível quando o medo estrutura a vida cotidiana. Não existe equilíbrio emocional quando sair de casa, terminar um relacionamento ou simplesmente dizer “não” pode ser uma sentença de morte. A violência contra as mulheres não é um evento isolado, não é fruto de surtos individuais, não é “crime passional”. Ela é política, social e profundamente enraizada em uma cultura que ainda vê mulheres como posse. Simone de Beauvoir já nos alertava que “não se nasce mulher, torna-se”. Torna-se também alvo. Torna-se vulnerável. Torna-se estatística em um país que falha sistematicamente na proteção de suas mulheres.

O caso de Tainara Souza Santos, morta na véspera de Natal, é um retrato brutal dessa falha. Tainara tinha 31 anos, era mãe de dois filhos e foi agredida, atropelada e arrastada pelo ex-companheiro. Lutou pela vida por quase um mês, internada, enquanto o país celebrava festas, ceias e promessas de renovação. Tainara morreu, e com ela morreu também projetos, afetos e futuros que jamais poderão ser reconstruídos. Sua morte não foi um acidente. Foi feminicídio. Um crime anunciado, precedido por violências, ameaças e pela incapacidade do Estado de agir a tempo.

Quando uma mulher morre assim, não é só o corpo que é destruído. É também a saúde mental de milhares de outras mulheres que acompanham a notícia e se confirmam ali. Mulheres que pensam: “poderia ter sido eu”. Mulheres que revivem traumas, que intensificam quadros de ansiedade, que passam a viver em estado constante de alerta. O feminicídio não mata apenas quem morre. Ele adolescente quem fica.

Na primeira semana de 2026, o Brasil registrou uma sequência de assassinatos de mulheres que escancarou a normalização da barbárie. Em sete dias, 21 mulheres foram mortas. Uma mídia de três por dia. Os números circulam nas redes, especialmente em perfis de denúncia e memória, como os que reúnem relatos de vítimas e notícias de feminicídio, transformando o luto em resistência. Não são apenas dados frios: são fragmentos de vidas interrompidas, histórias arrancadas do cotidiano, mulheres que tinham riso, trabalho, filhos, amigas, medos e planos. Cada uma delas foi assassinada por razões de gênero, em contextos marcados por relações de poder, controle e violência.

Essas mortes não surgem do nada. Elas fazem parte de um cenário já denunciado por dados oficiais. Somente no primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou 718 feminicídios, uma mídia de quatro mulheres mortas por dia. No mesmo período, quase 34 mil estupros contra mulheres foram contabilizados. Esses números não são desvios estatísticos: são a regra de uma sociedade que falha em proteger, prevenir e cuidar.

Falar de Janeiro Branco sem falar de feminicídio é esvaziar o sentido da campanha. Pensar saúde mental é pensar no coletivo, como apontam psicólogas e pesquisadoras que denunciam como desigualdades de gênero, raça e classe atravessam o adoecimento psíquico das mulheres. Mulheres negras, periféricas e pobres adoecem mais, porque estão mais expostas à violência, à precarização e ao abandono institucional.

A violência psicológica, muitas vezes invisível, é parte central desse processo. Antes do feminicídio, quase sempre há humilhação, isolamento, ameaças, controle, destruição da autoestima. Esse “veneno lento”, como já foi descrito, corrói a saúde mental das mulheres, normaliza o sofrimento e dificulta a ruptura com relações abusivas. Quando o Estado não registra esses sinais como urgência, ele se torna cúmplice.

Janeiro Branco deveria ser um espaço para fortalecer redes de cuidado, mas como falar de autocuidado para mulheres que vivem sob risco permanente? Como é exigido equilíbrio emocional de quem precisa sobreviver todos os dias? A responsabilização individual pelo bem-estar ignora que muitas mulheres não adoecem por fragilidade, mas por excesso de violência. Adoecem porque vive em um país onde o primeiro feminicídio de 2026 aconteceu poucas horas após a virada do ano, como se a violência não respeitasse sequer o simbolismo de um recomeço.

As 21 mulheres assassinadas na primeira semana do ano não são exceção. Elas são continuidade. São filhas de um sistema que naturaliza a morte feminina. Cada história carrega um contexto específico, mas todos se encontram em um mesmo ponto: a desigualdade de gênero que autoriza os homens a matarem mulheres quando se sentem contrariados, abandonados ou desafiados. Simone de Beauvoir já denunciou que a opressão não se sustenta apenas pela força, mas também pela cumplicidade silenciosa das estruturas sociais. O feminicídio é essa força levada ao extremo.

Cuidar da saúde mental das mulheres, portanto, não pode ser apenas oferecer terapia individual, embora ela seja fundamental. São precisas políticas públicas efetivas, acolhimento real, proteção imediata, acesso à renda, moradia, justiça ágil e comprometida. É preciso parar de perguntar por que eles não saíram da relação e começar a perguntar por que os agressores continuam tendo acesso às vítimas. É preciso romper com a cultura que romantiza o ciúme, o controle e a posse.

O Janeiro Branco nos convoca a falar de saúde mental 365 dias por ano, mas em um país que mata mulheres diariamente, essa convocação precisa ser radical. Precisa ser revolucionário. Não há saúde mental possível enquanto mulheres são assassinadas por serem mulheres. 

Não há equilíbrio emocional em um contexto de terror cotidiano. Não há silêncio que nos proteja.

Lembrar de Tainara é lembrar que o feminicídio não é um número. É uma história interrompida. Lembrar das 21 mulheres mortas em sete dias é um ato político. É recusa ou esquecimento. É afirmado que suas vidas importavam e que suas mortes não podem ser naturalizadas. O Janeiro Branco, em 2026, precisa ser um grito. Um grito por vida, por justiça e por um futuro em que cuidar da saúde mental das mulheres não seja sinônimo de ensiná-las a sobreviver, mas de garantir que elas possam, finalmente, viver.

(*) Yasmin Lyra Sousa (foto acima) é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres 

Redação

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