Mais de cinco décadas após a morte do jornalista Vladimir Herzog, filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), pesquisadores brasileiros conseguiram identificar o local exato onde a ditadura militar encenou a versão falsa de seu suicídio. A descoberta, divulgada em reportagem do programa Fantástico, lança nova luz sobre um dos episódios mais emblemáticos da repressão no país.
O estudo foi conduzido por especialistas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que cruzaram documentos históricos, fotografias da época e análises estruturais do prédio que abrigava o DOI-Codi, órgão de repressão do regime militar em São Paulo.
A equipe conseguiu localizar a sala onde foi produzida a imagem que sustentou, à época, a narrativa oficial de suicídio. Um dos elementos decisivos para a identificação foi a comparação entre características arquitetônicas visíveis na foto — como blocos de vidro e a disposição do ambiente — e vestígios encontrados no local, mesmo após reformas.
A coordenadora do grupo de trabalho do Memorial DOI-Codi, Deborah Neves, comenta sobre a descoberta.
Trazer luz para esse acontecimento é dar voz também a outras tantas pessoas que também foram presas, torturadas, sequestradas e tiveram seus direitos violados. (...) Alguns elementos já indicam isso, como esses balcões revestidos com azulejo e o piso vinílico, a cobertura com esse piso vinílico são alterações produzidas provavelmente a partir do ano de 1985.
Além disso, os pesquisadores encontraram indícios de alterações feitas ao longo dos anos para descaracterizar o espaço original, incluindo mudanças em paredes e estruturas internas. Depoimentos de ex-presos políticos também foram fundamentais para reconstruir o funcionamento do local e confirmar o uso da sala para interrogatórios e torturas.
Entre os indícios estão:
- o piso de madeira, posteriormente coberto;
- a janela com vidro e grade;
- marcas na parede compatíveis com a estrutura da grade;
- irregularidades abaixo da janela
- vestígios da caixa de ferrolho do lado da porta;
- dobradiças originais.
A imagem divulgada pelo regime já era considerada inconsistente desde a época. Nela, Herzog aparece pendurado de forma incompatível com um enforcamento, com os pés próximos ao chão — o que levantou suspeitas imediatas e fortaleceu denúncias de que o jornalista havia sido assassinado sob custódia do Estado.
Herzog foi preso em outubro de 1975 e morreu nas dependências do DOI-Codi após se apresentar voluntariamente para prestar depoimento. Investigações posteriores comprovaram que ele foi torturado e morto por agentes do regime, embora sua morte tenha sido inicialmente divulgada como suicídio.
Quem foi Vladimir Herzog?
Vladimir Herzog, nascido como Vlado Herzog em 27 de junho de 1937, na cidade de Osijek, então parte do Reino da Iugoslávia, foi um importante jornalista, professor e dramaturgo que se naturalizou brasileiro.
Ao longo de sua trajetória, também cultivou interesse pela fotografia, atividade ligada a seus projetos no campo do cinema. Com o objetivo de tornar seu nome mais familiar ao público brasileiro, passou a adotar a forma “Vladimir”.
Na década de 1970, destacou-se como diretor do departamento de telejornalismo da TV Cultura e atuou como professor na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, contribuindo para a formação de novos profissionais da área.
Mais tarde, Vladimir, que foi vinculado do Partido Comunista Brasileiro, passou a atuar politicamente no movimento de resistência contra a ditadura militar.
Importância
O caso teve forte repercussão nacional e internacional, sendo considerado um marco no enfraquecimento da ditadura militar brasileira. A comoção gerada impulsionou mobilizações sociais e ampliou a pressão pela redemocratização do país.
A recente identificação da sala reforça provas materiais das violações de direitos humanos cometidas no período e contribui para o enfrentamento de narrativas negacionistas. Pesquisadores e entidades defendem que o espaço seja preservado como local de memória, para que episódios como esse não sejam esquecidos.
(*) Isabel Fonseca, estagiária de Jornalismo com supervisão dos jornalistas Gilson Rocha e Malu Barreto.
Fonte: Fantástico
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