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Pesquisadora alerta que ódio viraliza mais que informação e liga misoginia à feminicídio

Ana Regina Rêgo concedeu entrevista ao Podcast Mulher Mais, na quinta-feira (26), apresentado pela jornalista Natalia Costa e pela cientista política

Por Natalia Costa

Terça - 31/03/2026 às 12:50



Foto: Arquivo Pessoal Pesquisadora Ana Regina Rêgo analisa impacto do discurso de ódio e da misoginia na sociedade brasileira
Pesquisadora Ana Regina Rêgo analisa impacto do discurso de ódio e da misoginia na sociedade brasileira

A professora e pesquisadora da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Ana Regina Rêgo, afirmou que o ódio se espalha mais rapidamente do que informações verdadeiras, que a misoginia é uma construção do patriarcado que pode levar ao feminicídio. A pesquisadora disse que movimentos machistas como incels e redpill, presentes no ambiente online, acabam se refletindo em episódios de violência contra a mulher no cotidiano.

 Ana Regina Rêgo concedeu entrevista ao Podcast Mulher Mais, na quinta-feira (26), apresentado pela jornalista Natalia Costa e pela cientista política Ozelir Santos.

O ódio possui uma potência 70% maior do que uma informação verdadeira para viralizar. Uma pesquisa diz que uma desinformação com ódio, aquilo que convoca medo, provoca angústia, aquilo que revolta. Pode chegar a milhões de pessoas e não precisa ter impulsionamento. E uma informação verdadeira pode chegar no máximo a 1000 pessoas. Então, há uma diferença muito grande entre o privilégio que as plataformas digitais dão à desinformação e ao discurso de ódio e aquilo que é relegado a informação.

A pesquisadora é criadora da Rede Nacional de Combate à Desinformação que teve início em setembro de 2020, com 33 parceiros, a partir de um lançamento realizado em veículos jornalísticos nacionais do Grupo Globo. Atualmente, a iniciativa reúne mais de 200 parceiros, entre instituições, grupos de pesquisa e órgãos como o Supremo Tribunal Federal (STF).

"É importante que a sociedade esteja unida nesse combate a desinformação. Nós, enquanto jornalista precisamos dialogar com o público e tentar informar esse público da melhor forma possível", destacou.

 Ana Regina Rêgo concedeu entrevista ao Podcast Mulher Mais, na quinta-feira (26), apresentado pela jornalista Natalia Costa e pela cientista política Ozelir Santos | Foto: Piauí Hoje

Misoginia: ódio as mulheres

"É uma coisa nada nova e ao mesmo tempo muito comum, que é o ódio à mulher. É o ódio à mulher que se manifesta de diversas formas até a sua manifestação extrema, que é o feminicídio, e que no Brasil a gente tem visto nos últimos dez anos um crescimento no número de feminicídios nos últimos dez anos", avalia Ana Regina Rêgo.

Segundo a pesquisadora mesmo com mais de 50% das famílias brasileiras sendo chefiadas por mulheres, elas continuam sendo exploradas em diferentes esferas, como fora de casa, ao receberem salários menores que os homens, e dentro de casa, ao enfrentarem dupla ou até tripla jornada de trabalho.

Esse cenário reflete uma estrutura sólida do patriarcado, que se sustenta na manutenção do poder masculino sobre as mulheres. A partir disso, constrói-se um processo de misoginia, muitas vezes interpretado como se a luta por direitos iguais significasse retirar direitos dos homens.

O machismo pode se manifestar de forma mais sutil, enquanto a misoginia representa sua forma mais extrema. Não se trata apenas de desprezo, mas de ódio direcionado à mulher e a tudo que remete ao feminino.

A pesquisadora disse que a misoginia seja nas relações de trabalho ou relacionamentos pode se manifestar através de comentários como “essa roupa está curta”, “por que você cortou o cabelo?” ou “esse batom é muito vermelho”. São pequenas violências que vão se acumulando ao longo da relação.

Esse tipo de comportamento não se limita ao ambiente íntimo. No trabalho também pode ocorrer comentários sobre a roupa, julgamentos sobre a aparência. O assédio tem uma relação direta com a misoginia. Nem sempre se apresenta como ódio explícito, mas está ligado ao exercício de poder. É uma tentativa de reduzir a mulher à condição de objeto.

Quando a mulher se posiciona, questiona ou demonstra senso crítico, ela passa a ser rotulada e chamada de “louca”, “histérica” ou outros termos pejorativos, tornando-se alvo de deslegitimação e, muitas vezes, de ódio. Isso revela uma lógica patriarcal antiga, que ainda persiste, não é permitido à mulher levantar a voz, reclamar ou discordar.

Redpill e incels ampliam discurso de ódio

"São fenômenos que se agregam aos modelos de negócio das plataformas para que possam viralizar e ao mesmo tempo ganhar seguidores, como se fosse uma trend de brincadeira, mas que carrega em si uma violência simbólica. E essa violência simbólica, se transforma em violência física a cada esquina", explicou a pesquisadora.

Segundo uma reportagem da Agência Brasil, Redpill é um termo inspirado no filme Matrix, em que o protagonista toma uma pílula vermelha que dá a ele consciência da realidade. Na machosfera, descreve homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres manipulam e exploram os homens. Pregam que o homem deve reassumir o domínio e manter a mulher submissa. 

Já os Incels são a contração da palavra em inglês involuntary celibates (celibatários involuntários). São homens que alegam, de forma ressentida e violenta, não conseguir parceiras sexuais ou românticas por culpa das mulheres ou de padrões sociais.

"No discurso dos Redpill são exatamente assim a mulher não pode ter tatuagem, a mulher não pode andar descabelada, a mulher não pode andar sem maquiagem, ela não pode ter uma celulite, ela não pode ter uma gordurinha. Então há uma objetificação da mulher e a mulher só serve a esse tipo de machismo e misoginia se ela for um objeto", explicou.

Como combater o ódio às mulheres?

Ana Regina defende que o enfrentamento à misoginia e ao ódio contra as mulheres exige medidas amplas e articuladas. Segundo ela, o problema é estrutural e multidimensional, o que demanda ações em diferentes frentes, especialmente na educação e na legislação.

 A educação é sobretudo para os homens, porque a mulher não é culpada pelo crime que sofre.

Para a professora, é fundamental investir na educação desde a base familiar até o ambiente escolar e é necessário uma mudança cultural na forma como meninos e meninas são educados.

Outro ponto central é o fortalecimento das leis. A pesquisadora lembra que, apesar de avanços como a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio, os índices de violência seguem elevados. "A Lei Maria da Penha, que é uma lei que já está fazendo 20 anos, mas que mesmo com essa lei a gente tem um crescimento imenso. E a lei do feminicídio, que fez dez anos no ano passado, já tem 11 anos", afirmou

Assista o podcast completo:

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