A Quarta-feira de Cinzas dá início a um dos períodos mais significativos do calendário cristão: a Quaresma. Vivida ao longo de cerca de quarenta dias, ela se estende até a Quinta-feira Santa, sendo tradicionalmente marcada, entre os católicos, por práticas de oração, jejum e caridade.
Se você parar para contar diretamente no calendário, perceberá que o intervalo totaliza mais dias. No entanto, para a Igreja, os domingos não entram nessa conta, já que são considerados celebrações da ressurreição. Por isso, mantêm-se os quarenta dias que dão nome e sentido à Quaresma, mesmo que seja aproximado.
O que é a quaresma?
O número quarenta carrega forte simbolismo bíblico: representa tempo de prova, preparação e amadurecimento. Segundo a tradição cristã, foi durante quarenta dias que Jesus permaneceu no deserto em oração e jejum. Inspirados nesse exemplo, os fiéis são chamados a viver esse período com maior consciência de suas escolhas, atitudes e responsabilidades.
Quaresma é entendida como um convite à conversão pessoal e à renovação espiritual para os católicos
Mais do que um conjunto de regras religiosas, a Quaresma é entendida como um convite à conversão pessoal e à renovação espiritual para os católicos. Ao contrário do que muita gente acredita, ela não funciona como um sistema rígido de obrigações diárias, assim como no período do Ramadã para os muçulmanos, por exemplo, com fortes restrições sobre o que, e quando, se pode comer e beber.
Isso não significa, porém, que não existam orientações formais. O Direito Canônico da Igreja Católica estabelece algumas normas mínimas para a vivência da Quaresma, especialmente ligadas às práticas penitenciais. Entre elas estão o jejum obrigatório na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa, indicado para fiéis entre 18 e 59 anos, e a abstinência de carne às sextas-feiras da Quaresma, obrigatória a partir dos 14 anos. Pessoas doentes, idosas, gestantes, lactantes ou em situações específicas são dispensadas dessas práticas. Essas regras, no entanto, são compreendidas hoje como um ponto de partida e não como a totalidade do sentido quaresmal.
O que predomina na vivência contemporânea da Quaresma é uma visão mais ampla, que entende essas normas como sinais pedagógicos, inseridos em um caminho maior de reflexão, conscientização e preparação para a Páscoa, marcada pela ressurreição de Cristo após sua morte na cruz.
Quais são as orientações para a Quaresma?
A Igreja Católica indica três práticas centrais para a vivência da Quaresma: jejum, oração e esmola. Elas funcionam como caminhos espirituais que conduzem à conversão, palavra-chave do período, que significa mudança de atitude e de direção.
O jejum, muitas vezes associado apenas à alimentação, tem um sentido mais amplo. Ele pode envolver a redução de excessos, a renúncia a vícios ou hábitos prejudiciais e a revisão da relação com o consumo. A proposta não é o sacrifício vazio, mas a consciência.
A proposta do jejum não é o sacrifício vazio, mas a consciência
A oração, por sua vez, convida ao recolhimento e à escuta. É um tempo de maior proximidade com a Palavra de Deus, de silêncio interior e de reflexão. Em um cotidiano marcado pela pressa, a Quaresma sugere desacelerar para ouvir mais: a si mesmo, ao outro e à fé.
Já a esmola, entendida como caridade, é o gesto concreto que dá sentido às outras práticas. A ideia é que toda renúncia gere partilha. Abrir mão de algo deve resultar em benefício para alguém, especialmente para quem vive em situação de vulnerabilidade.
Segundo o padre Clésio dos Santos, da Reitoria do Carmo, em Vitória (ES), esses três pilares precisam caminhar juntos para que a Quaresma tenha sentido real. “Esse período vem com jejum, esmola e oração. Esses três caminhos nos levam à conversão. Conversão é mudança de direção, é refletir o espírito da Quaresma, que é recolhimento.”
Jejum: não é somente deixar de comer carne
Um dos costumes mais conhecidos da Quaresma é a abstinência de carne, especialmente às sextas-feiras. Apesar de ser uma orientação tradicional da Igreja, o padre Clésio reforça que o sentido do jejum não está no alimento em si, mas no sentido que ele traz.
"Historicamente, a carne era considerada um alimento mais festivo e associado à celebração. Ao abrir mão dela, o fiel faz um gesto simbólico de simplicidade e penitência, em memória do sofrimento de Jesus Cristo. Então, o verdadeiro sentido não é simplesmente não comer carne, mas lembrar do porquê da ação”, reflete.
Para ele, o jejum precisa provocar reflexão e transformação. Caso contrário, perde o sentido espiritual. “Não adianta fazer jejum e acordar dando patada em todo mundo. A Quaresma é um mecanismo para viver bem. Não adianta fazer jejum de alguma coisa se isso não gera reflexão. Se eu deixo de comer isso ou aquilo e não faço nada com isso, como ajudar alguma outra pessoa ou continuar com ações passadas, não adiantou nada", reforça.
Caridade como consequência da renúncia
A esmola, ou caridade, ocupa um papel central na vivência quaresmal. Não se trata apenas de doar, mas de partilhar aquilo a que se está apegado.
“A esmola é o desapego daquilo que você tem apego. Se eu paro de gastar com alguma coisa por 30 dias e isso vira ajuda para alguém que precisa, isso tem qualidade", reforça o padre. Ele destaca ainda que a Igreja não propõe sofrimento nem privações desumanas.
“A Igreja é mãe. Ela não quer que ninguém passe necessidade. Jesus já fez o sacrifício por nós. O que a Igreja quer é consciência orante e partilha com o próximo.”, enfatiza
A esmola, ou caridade, ocupa um papel central na vivência quaresmal
Cinzas, Carnaval e mudança de atitude
A Quarta-Feira de Cinzas marca simbolicamente o início da Quaresma e representa uma ruptura com os excessos, inclusive os associados ao Carnaval. “A cinza é um sinal de mortificação, um sinal de que a pessoa está disposta a mudar. Ela não purifica sozinha. É um compromisso de viver aquele período de forma mais consciente.”
Para o padre Clésio, a Quaresma não é um tempo de tristeza, mas de crescimento. “A Quaresma é mortificação, mas também é liberdade. A gente purifica o corpo para alimentar a alma espiritualmente. Quando a pessoa vive bem esse tempo, ela cresce.”
O que o Papa Leão XIV disse sobre a Quaresma
Na mensagem para a Quaresma de 2026, o Papa Leão XIV reforçou esse convite à escuta e ao recolhimento. Segundo o pontífice, o tempo quaresmal é uma oportunidade para colocar Deus novamente no centro da vida e aprender a ouvir, não apenas a Deus, mas também o outro, especialmente os mais vulneráveis.
O Papa chamou atenção para um tipo de jejum que vai além da alimentação: o “jejum da linguagem”. Para ele, a conversão também passa por reduzir palavras ofensivas, julgamentos apressados e discursos agressivos, abrindo espaço para o diálogo, a misericórdia e a paz.
Em um mundo marcado por excesso de ruído, polarização e respostas imediatas, o pontífice destacou que a Quaresma convida a desacelerar, silenciar e escutar mais: nas famílias, no trabalho, nas comunidades e até nas redes sociais.
Fonte: CNN