
Num mundo onde a solidão se tornou uma epidemia silenciosa, um fenômeno preocupa os profissionais da psicologia: a substituição do contato humano por interações com inteligência artificial. Em entrevista ao podcast Piauí Hoje, conduzido pela jornalista Malu Barreto, a psicóloga Suzy Tiberly desmonta a ideia de que chatbots podem oferecer apoio emocional válido.
"A relação terapêutica é construída através do vínculo humano, algo que nenhum algoritmo pode replicar", afirma Suzy. A psicóloga explica que o ChatGPT opera através de padrões estatísticos e respostas pré-programadas, incapaz de capturar nuances emocionais, linguagem corporal ou a mensagem que um silêncio pode significar numa sessão de terapia.
E já há casos trágicos envolvendo inteligência emocional. "Uma jovem usou o ChatGPT para escrever sua carta de despedida antes do suicídio. Aquelas não eram suas palavras, eram da máquina. Estamos terceirizando até as despedidas". Segundo Suzy, este caso exemplifica o perigo de confundir respostas automatizadas com acolhimento real.
A psicóloga reconhece que a ferramenta pode ser útil para informações básicas sobre saúde mental ou técnicas de relaxamento, mas enfatiza:
"Isso não é terapia. Terapia exige escuta qualificada, formação específica e compromisso ético, coisas que uma IA não possui".
Um dos pontos mais críticos destacados por Suzy é a ilusão de empatia criada pelos chatbots. "As pessoas desenvolvem dependência emocional por uma entidade que não sente, não ouve e não compreende verdadeiramente. É uma humanização forjada que pode agravar o isolamento social", explica.
A psicóloga Suzy Tiberly foi entrevistada no PodCast do Portal Piauí Hoje com a jornalista Malu Barreto
A profissional também chama atenção para a falta de regulamentação: "Não há proteção para dados sensíveis compartilhados com chatbots, não existe sigilo como no atendimento profissional, e não há supervisão para casos de crise".
Questionada sobre o aumento da popularidade dessas ferramentas, Suzy atribui o fenômeno à combinação entre acesso limitado a profissionais de saúde mental e a promessa de soluções rápidas.
"As pessoas buscam respostas imediatas para sofrimentos complexos, mas atalhos tecnológicos não substituem processos terapêuticos", pondera.
Como contraponto, a psicóloga destaca o valor da terapia online com profissionais humanos: "O digital pode ampliar acesso, desde que mantenha a essência do vínculo terapêutico. Videochamadas ainda permitem conexão genuína, diferente de conversas com algoritmos".
Para Suzy é necessário resgatar o contato humano autêntico e voltar para o analógico. “Precisamos voltar a escrever à mão, conversar olho no olho, compartilhar presencialmente. Nossa saúde mental depende disso".