Um dado alarmante referente aos Boletins de Ocorrência registrados nas delegacias especializadas mostra uma triste realidade: as desigualdades raciais impactam o enfrentamento da violência doméstica no Estado do Piauí. “A gente vê que as mulheres negras e periféricas possuem o maior impacto da violência doméstica”, revela a delegada Bruna Verena Brito do Rosário Fontenele, diretora de Proteção à Mulher e aos Grupos Vulneráveis (DPMGV).
Sobre o cenário atual da violência doméstica no Piauí, especialmente contra mulheres, a delegada afirma que, “infelizmente, a violência contra a mulher ainda é crescente, não só no Piauí, mas em todo o mundo. E a gente tem o Brasil como país preconceituoso, que ainda tem a questão da desigualdade de gênero. Então, infelizmente, a gente ainda tem uma violência contra a mulher muito presente”, pondera Bruna Verena, argumentando que isso se deve, principalmente, ao preconceito contra a mulher e à desigualdade de gênero.
Delegada Bruna Verena Brito do Rosário Fontenele é diretora de Proteção à Mulher e aos Grupos Vulneráveis (DPMGV). Foto: Reprodução/Instagram
Nesse contexto, ela citou, como exemplo, a declaração machista do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, que repercutiu nas redes sociais no dia 21 de fevereiro de 2026, quando o jogador afirmou que a mulher não poderia estar apitando aquele jogo de futebol.
Árbitra Daiane Muniz foi alvo de preconceito por parte do o jogador Gustavo Marques. Fotos: Reprodução/Redes Sociais
De acordo com o ocorrido, após a derrota do Bragantino para o São Paulo (2x1), nas quartas de final do Campeonato Paulista de 2026, o jogador chegou a criticar a atuação da árbitra Daiane Muniz. Gustavo Marques afirmou: "Não adianta colocar uma mulher para apitar um jogo desse tamanho". Ele questionou a capacidade da árbitra de comandar uma partida de tal magnitude e sugeriu que houve um favorecimento ao São Paulo. A fala gerou grande repercussão negativa e foi classificada como machista e misógina, gerando notas de repúdio.
Isso mostra o quê? A questão do preconceito contra a mulher, da desigualdade de gênero, de que os homens ainda não reconhecem a mulher tendo uma autoridade naquele contexto. Isso causa preconceitos, causa desigualdade de gênero, e enquanto a gente vai preconceito e desigualdade de gênero, a gente vai ter violência contra a mulher”, lamenta Bruna Verena.
Outro caso foi destaque na imprensa do Piauí. Na madrugada do dia 14 de janeiro de 2024, a modelo Mariana Lopes de Meneses denunciou ter sido brutalmente agredida por Manfredo Vertunes Pereira, síndico do condomínio Edna Chrisóstomo, localizado na zona Leste de Teresina. Segundo a vítima, as agressões teriam ocorrido após ela procurar o síndico para relatar um vazamento de gás no prédio.
Mariana Lopes de Meneses denunciou ter sido brutalmente agredida por um síndico de onde mora. Foto: Arquivo Pessoal
Mais recentemente, no dia 1º de fevereiro de 2026, a influenciadora Paulla Rafaella denunciou ter sido vítima de agressão por parte do ex-namorado, Enzo Gabriel, em Teresina. O caso foi registrado na Casa da Mulher Brasileira, e o relato também foi divulgado pela vítima nas redes sociais no domingo (1º). O suspeito acabou sendo preso no dia 10 de fevereiro, após descumprir uma medida protetiva.
Paulla Rafaella denunciou ter sido vítima de agressão por parte do ex-namorado. Foto: Reprodução/Internet
Paulla afirmou que as agressões tiveram início em outubro de 2025 e, segundo ela, eram motivadas, na maioria das vezes, por crises de ciúmes. O episódio mais recente, de acordo com a influenciadora, ocorreu na noite de sábado (31), no quarto da residência onde mora, na zona Norte de Teresina. Ela relatou que tentou fugir do local, mas teria sido impedida pelo ex-companheiro.
A delegada explica que não existe um perfil definido das mulheres que são vítimas de violência. Segundo ela, “independem de idade, de grau de instrução, de escolaridade. A gente vê a violência contra a mulher em qualquer faixa etária, o que é muito grave”, reforça Bruna Verena, acrescentando que não é possível diagnosticar quais mulheres são mais vulneráveis.
Mesmo não sendo possível identificar quem será a próxima vítima, a delegada afirmou que a Delegacia de Proteção à Mulher e aos Grupos Vulneráveis tem um público com números mais claros. “Que são as mulheres negras, periféricas, são mulheres que precisam de mais atenção, mas a violência contra a mulher está em todas as facetas da sociedade”, revela.
Atuando de forma rigorosa nesse tipo de ocorrência, a Polícia Civil conta com o apoio do Tribunal de Justiça do Piauí no enfrentamento à violência doméstica. Isso porque a Polícia Civil tem parceria com toda a rede de apoio, como o Ministério Público, Polícia Militar, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública, Guarda Maria da Penha, Patrulha Maria da Penha, além das redes de assistência social, como CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). Tudo isso forma uma rede de apoio para a mulher.
Por exemplo, aqui em Teresina, a gente tem a Casa Mulher Brasileira, que funciona na Zona Norte, que é um centro de referência. O que é um centro de referência? Se a mulher estiver precisando de qualquer serviço, ali é uma referência para ela, ela vai até lá e pode encontrar vários serviços para poder ser atendida e solucionar o seu problema”, esclarece a delegada.
Medida protetiva pode salvar a vida de mulheres vítimas de violência
Outra forma de ajudar mulheres vítimas de violência doméstica são as medidas protetivas, que são determinações legais impostas pela Justiça para proteger uma pessoa que esteja em situação de risco ou ameaça, especialmente em casos de violência doméstica e familiar. As medidas protetivas são ordens judiciais urgentes que têm o objetivo de garantir a segurança da vítima, afastando ou limitando o contato do agressor.
Elas são aplicadas quando há indícios de situações como: violência física, violência psicológica, ameaça, perseguição, violência sexual e violência patrimonial ou moral. Tais situações podem ocorrer dentro de relacionamentos familiares, conjugais ou afetivos.
Vale lembrar que, no Brasil, essas medidas são previstas principalmente na Lei Maria da Penha, criada para proteger mulheres vítimas de violência. “As medidas protetivas são instrumentos muito importantes, porque as mulheres podem pedir ao juiz para que não permita que o agressor faça determinadas medidas, como, por exemplo, se aproximar daquela mulher, entrar em contato com ela via WhatsApp, via telefone ou presencialmente”, enfatiza Bruna Verena.
Delegada falou da importância das medidas protetivas para mulheres vítimas de violência. Foto: Arquivo Pessoal
Então, se uma mulher está sendo perseguida — toda vez que sai do trabalho, seu ex-companheiro passa na porta, fica ligando insistentemente, arruma outros telefones para ligar — a vítima pode pedir uma medida protetiva, e o juiz determinará que ele não se aproxime mais dela nem entre em contato. “E se o agressor descumprir essas medidas, a gente pede a prisão preventiva dele. Então, a medida protetiva é isso, é um instrumento para afastar o agressor. E se ele descumprir, é possível a prisão dele”, pondera a delegada.

Bruna Verena informa que as desigualdades raciais impactam o enfrentamento da violência doméstica no Estado, pois, de acordo com ela, as mulheres negras e periféricas são as maiores vítimas dessa violência. “A gente vê que elas têm mais dificuldade aos meios de denúncia, por isso que a gente tenta fazer com que essas mulheres possam cada vez mais se aproximar da polícia”, diz, mencionando que a denúncia pode ser feita por meio de boletins de ocorrência virtuais. Até porque, hoje em dia, a vítima não precisa mais se deslocar até a delegacia para fazer um boletim de ocorrência, podendo ser feito via internet.
“A gente tem o WhatsApp ‘Ei, mermã, não se cale!’, onde a mulher faz denúncias, pede ajuda, tudo pelo WhatsApp, porque a gente sabe que ela tem um problema”, enfatiza a delegada, referindo-se ao aplicativo aliado nessa luta contra a violência doméstica. O serviço está disponível 24 horas, por meio do número 0800-000-1673.
Trata-se de um serviço de acolhimento e proteção voltado para mulheres que enfrentam situações de violência ou vulnerabilidade. Esse tipo de iniciativa costuma atuar em parceria com órgãos da rede de proteção, como o Centro de Referência de Assistência Social, o Centro de Referência Especializado de Assistência Social e as delegacias especializadas, oferecendo orientação e apoio às vítimas.

Bruna Verena esclarece que, pelo aplicativo, a mulher pode pedir ajuda via WhatsApp, já que hoje tudo é resolvido por esse meio. “A gente tem um aplicativo do Tribunal de Justiça que é Júlia, que a mulher pode pedir a medida protetiva direto para o Tribunal de Justiça, pelo seu celular. Então, assim, a gente tenta sempre aproximar essa mulher da rede de apoio, nem que seja virtualmente, para que a mulher não precise se deslocar”, acrescenta a delegada, explicando que a mulher vítima de violência doméstica conta com várias ferramentas neste momento de vulnerabilidade.
O coordenador-geral do OpalaLab, o desembargador José Wilson Araújo, destaca que a disponibilização da assistente virtual pelo WhatsApp tem como principal objetivo aproximar o Poder Judiciário da população.
Segundo ele, o chatbot da JuLIA reúne cerca de 3 milhões de informações relacionadas ao Judiciário, que podem ser acessadas a qualquer momento pelos cidadãos. “A ferramenta permite que a população consulte dados e serviços de forma rápida, contribuindo para fortalecer a relação entre o Tribunal de Justiça do Estado do Piauí e a sociedade”, afirmou.
Vítimas preferem ser atendidas por outras mulheres
Muito se tem feito para garantir o acesso à Justiça a mulheres em situação de maior vulnerabilidade social e racial. Esse acesso significa oportunizar que a mulher consiga denunciar, consiga chegar até os órgãos competentes, facilitando esse processo. “Com esses meios virtuais, principalmente o BO Virtual, plantão 24 horas da Casa Mulher Brasileira, que hoje funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana. Então, qualquer dia, qualquer horário que a mulher chegar lá, vai ser atendida. Tudo isso para facilitar o acesso dessa mulher”, pondera a delegada.
Outra forma de facilitar e incentivar as vítimas a denunciarem seus agressores é por meio da capacitação de profissionais para o atendimento a essas mulheres, considerando gênero e raça. “A gente começa essa capacitação na academia de polícia, quando o profissional ingressa na polícia. Ele passa por um curso de formação, antes de atuar como policial, depois dessa atuação na formação são feitas capacitações contínuas. Então, assim, os policiais civis são continuamente capacitados nessa pauta”, destaca Bruna Verena.
Delegada conta que profissionais passam por capacitação antes de atender as mulheres vítimas de violência. Foto: Reprodução
Quando decidem denunciar seus agressores e ainda em um estado de fragilidade, medo e tensão, as vítimas não encontram segurança em serem atendidas por homens, seja na delegacia ou em outros locais destinados ao registro do BO, dando preferência por mulheres para ouvirem seus relatos. “É natural que as mulheres prefiram ser atendidas por outras mulheres e a gente oportuniza isso nas Delegacias da mulher. E os homens que atendem, a gente também garante que eles tenham essa capacitação para que possam atender bem, atender a mulher com empatia, sem julgamentos, sem críticas, para que aquela mulher se sinta à vontade na hora de denunciar. Mas a gente preferencialmente faz esse atendimento com as mulheres”, informa.
Quando os casos de violência doméstica são cometidos contra crianças e adolescentes, também há rigor no tratamento, pois existem medidas protetivas específicas, a exemplo da Lei Henry Borel, sancionada em 2022, após a morte do menino Henry Borel Medeiros, de 4 anos, que morreu no Rio de Janeiro após sofrer agressões.
Os principais pontos da lei são: criar medidas protetivas específicas para crianças e adolescentes vítimas de violência doméstica; aumentar as penas para crimes cometidos contra menores no ambiente familiar; permitir que autoridades afastem imediatamente o agressor do convívio da criança; determinar atendimento prioritário e especializado às vítimas; estabelecer o monitoramento do agressor, podendo incluir tornozeleira eletrônica; e obrigar a notificação de suspeitas de violência por profissionais de saúde e educação.

É preciso deixar claro que essas medidas protetivas também são encaminhadas à Justiça para afastar esses agressores, até porque a criança e o adolescente têm uma legislação diferenciada, que é o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Mas, proporcionalmente, acontece da mesma forma, ou seja, é feito o Boletim de Ocorrência, o inquérito policial, e também pode ser solicitada essa medida protetiva.
Criado pela Lei nº 8.069, de 1990, o Estatuto estabelece normas para assegurar o desenvolvimento saudável, a dignidade e a proteção contra qualquer forma de violência, exploração ou negligência.
Combate à violência doméstica exige mudança cultural, diz delegada
Para dar mais agilidade e eficiência ao trabalho de combate à violência doméstica, entra em ação uma articulação entre a Polícia Civil, o Judiciário e demais órgãos da rede de proteção. Trata-se de uma articulação que vem funcionando muito bem, tanto formal quanto informalmente, sendo possível acionar rapidamente toda a rede quando há alguma situação. Por exemplo, quando a Delegacia de Proteção à Mulher e aos Grupos Vulneráveis recebe alguma reclamação de que a pessoa não conseguiu fazer o BO, não conseguiu pedir uma medida protetiva ou que está precisando de ajuda em determinado local. Nesse caso, a rede rapidamente aciona a Polícia Civil e consegue dar esse retorno.
Bruna Verena disse que vítima de violência precisa de acolhimento. Foto: Arquivo Pessoal
Em relação aos avanços conquistados pelo Piauí no combate à violência doméstica, a delegada Bruna Verena cita o plantão da Casa da Mulher Brasileira, que agora funciona 24 horas. “É um local muito importante para as mulheres, onde elas têm todo um acompanhamento psicossocial de trabalho e renda. As mulheres que chegam lá têm a oportunidade de ter um encaminhamento para a situação de trabalho e renda, que hoje é algo que é o motivo que leva as mulheres ainda a permanecer na situação de violência”, observa, mencionando que, se essa mulher tem uma renda, se ela não tem para onde ir, então a Casa da Mulher Brasileira também se preocupa com isso, no sentido de propiciar à mulher estratégias de trabalho e renda, curso profissionalizante e preferência na moradia.
A delegada argumenta que a ideia é que essa mulher chegue ao local, se sinta acolhida e tenha todos os serviços para resolver aquele problema e sair da situação de violência. “Então, hoje, a gente está crescendo nesse sentido de integração, de dar a essa mulher mais oportunidades para ela sair da violência”, pondera.

Hoje, o maior desafio para fortalecer a proteção às vítimas e reduzir os casos de violência doméstica no Piauí, conforme disse Bruna Verena, é cultural: trata-se de fazer com que toda a sociedade se volte para enfrentar esse problema do preconceito contra a mulher. E o primeiro passo é modificar o pensamento dos homens em relação às mulheres. Até porque muitos homens veem a mulher como uma extensão sua, acreditando que têm poder e controle sobre ela. “A gente vê nos noticiários o homem matando a mulher porque ela não quis continuar o relacionamento, ou seja, ele acha que aquela mulher é posse dele. Ele não admite aquela mulher ter outra vida e outro relacionamento”, lamenta.
Ela disse que esse trabalho cultural começa dentro de casa, cuidando dos filhos, ensinando aos meninos a respeitar as meninas, ensinando nas escolas e, assim, fortalecendo a igualdade de gênero. O papel da prevenção e da conscientização no enfrentamento à violência doméstica é outro diferencial apontado pela delegada. “É o mais importante, porque só com a prevenção, com a conscientização, é que a gente vai ter o fim da violência contra a mulher, porque a gente não quer reprimir o crime, a gente quer que ele não aconteça. A gente faz a repressão, faz isso muito bem feito após o crime acontecer, mas a gente quer que ele não aconteça”.
E, para as vítimas que ainda têm receio de denunciar seus agressores, a delegada Bruna Verena deixa uma mensagem: “Que peça ajuda, seja na polícia, seja na Casa Mulher Brasileira, Ministério Público, que peça ajuda na rede de apoio para que a gente não tenha essa violência crescendo e chegar numa violência extrema que é o feminicídio. A gente precisa barrar a violência para que ela não chegue até o feminicídio”, alerta.
“É preciso desconstruir o machismo”, diz secretária da Mulher
São muitas as ocorrências de casos de violência doméstica no Piauí que repercutem com frequência na mídia local. De acordo com o relatório “Elas Vivem: a urgência da vida”, divulgado no dia 06/03/2026 pela Rede de Observatórios de Segurança, há um cenário preocupante no estado. Segundo o levantamento, os casos de violência contra a mulher cresceram 17,6% em 2025, com o registro de 379 mulheres vítimas de diferentes formas de violência ao longo do último ano.
Outro dado alarmante apontado pelo estudo mostra que o perigo para muitas mulheres ainda está dentro do próprio ambiente doméstico. Segundo o relatório, 76,7% das mulheres assassinadas foram mortas por parceiros ou ex-companheiros, evidenciando que a maior parte dos crimes ocorre em relações marcadas por histórico de violência.
Conforme o estudo, recusar ou decidir encerrar um relacionamento ainda pode representar risco de morte para muitas mulheres. O levantamento aponta que, entre as principais motivações para os crimes, estão o término de relacionamentos e o sentimento de posse por parte dos agressores, evidenciando a persistência de comportamentos violentos ligados ao controle e à intolerância diante da autonomia feminina.
Zenaide Lustosa relata ações desenvolvidas pela Secretaria de Estado das Mulheres no Piauí. Foto: Gilson Rocha
Segundo afirma a secretária de Estado das Mulheres do Piauí, Zenaide Batista Lustosa Neta, a violência doméstica no estado é uma questão cultural, cujo núcleo está no machismo estrutural da sociedade. “A gente avança no enfrentamento, mas com várias campanhas preventivas, blitzen educativas, no acolhimento das mulheres. Mas a gente precisa avançar e desconstruir o machismo que existe dentro de cada homem para que a gente possa realmente, inclusive, avançar também para que as mulheres tenham consciência, porque muitas delas vivem no ciclo de violência e muitas vezes ela não consegue se perceber dentro deste ciclo”, analisa.
Ela relata que o governo do Piauí desenvolve várias políticas em áreas estratégicas, como segurança, agricultura familiar, educação e saúde, sendo que as políticas para as mulheres não passam apenas pela Secretaria das Mulheres.
Zenaide Lustosa explica que as violências psicológica e física são as mais recorrentes atendidas pela Casa da Mulher Brasileira. “São as maiores violências sofridas pela mulher, pelo menos por aquelas que denunciam. Mas tem uma questão, pois, quando você sofre a violência física, já vem sofrendo essa violência psicológica. Por isso que a gente tem essas campanhas, onde dialogamos com a sociedade, homens e mulheres”, frisa a secretária, informando que sempre esclarece a todos que existe a Lei Maria da Penha, que prevê cinco tipos de violência doméstica: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial.
Ela disse que é comum as mulheres perguntarem o que é violência patrimonial, até porque, muitas vezes, estão inseridas nessa situação e não sabem identificá-la. Trata-se do tipo de violência doméstica que ocorre quando alguém retém, destrói, controla ou se apropria de bens, dinheiro ou documentos da vítima, prejudicando sua autonomia financeira. “E principalmente tem a questão da violência psicológica e da moral que termina você não percebendo que é uma violência. Então um dos desafios é esse, é a gente se reconhecer essas violências e saber como é que se dá essas violências”, explica Zenaide Lustosa.
Secretária da Mulher mostra material educativo distribuído em ações no Piauí. Foto: Gilson Rocha
A secretária relata que o Estado tem hoje um índice elevado de mulheres jovens que sofrem violência e são vítimas de feminicídio. Zenaide conta que a juventude incorpora o machismo que vem ocorrendo há séculos dentro da sociedade, “e isso vai passando de avô para papai; de pai para filho, para o irmão, para a irmã, porque a questão cultural está enraizada e, para desconstruir, você tem que passar pela educação, que é um espaço de conscientização e de sensibilização”, diz.
Ela refere-se à educação dentro da escola, ainda na primeira infância, esclarecendo que é preciso trabalhar com meninos e meninas a relação de respeito, ou seja, que o homem não pode fazer tudo, que ele deve respeitar a menina, mas isso também se reflete na criação familiar. “Porque se o menino vê que o pai bater na mãe, que o pai maltrata a mãe, ele naturaliza isso dentro de casa e leva para a sociedade e suas relações”.
Casa da Mulher Brasileira oferece acolhimento necessário às vítimas
Localizada na Avenida Roraima, nº 2563, bairro Aeroporto, zona Norte de Teresina, a Casa da Mulher Brasileira é um espaço público criado para acolher e atender mulheres em situação de violência, reunindo vários serviços em um único local para facilitar o acesso à proteção, à Justiça e ao apoio psicológico. Em um só lugar, é possível oferecer diversos tipos de serviços em uma rede integrada.
Na unidade, estão concentrados vários órgãos da rede de proteção, como: Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher; Defensoria Pública; Ministério Público e Justiça especializada; atendimento psicológico e assistencial; Patrulha Maria da Penha e Guarda Maria da Penha; brinquedoteca para crianças que acompanham as mães; central de transporte para encaminhamentos; e alojamento temporário para mulheres em risco imediato.
Casa da Mulher Brasileira conta com vários profissionais preparados para receber vítimas de violência. Foto: Reprodução
“E para além desse acolhimento, num só lugar, você também tem outras políticas que são implementadas, por exemplo, a Autonomia Econômica. Na própria Casa da Mulher Brasileira, em Teresina, você tem o Sistema Nacional de Emprego (SINE) e pode estar se cadastrando para a vaga de emprego. Nós fazemos qualificação permanente das mulheres e já fizemos vários cursos. Para além da qualificação, essas mulheres conseguem ser inseridas no mercado de trabalho”, frisa, destacando a parceria firmada com empresas, tanto públicas quanto privadas.
Outro diferencial mencionado por Zenaide Lustosa é a importância do atendimento humanizado para romper o ciclo de violência, sendo esse o foco desses serviços. E isso passa pela formação dos profissionais de segurança que trabalham conjuntamente com a Secretaria das Mulheres e a Secretaria de Segurança para capacitar todos os agentes públicos da área, seja da Polícia Civil, da Polícia Militar ou do Corpo de Bombeiros. “E é importante porque quando a mulher chega no espaço para fazer a denúncia, na delegacia, ela já acumulou força para chegar até lá. E se ela é maltratada, se não tem a informação, se não tem esse acolhimento, isso vai fazer com que ela recue inclusive a denúncia, porque a mulher está fragilizada, por isso que a gente procura fazer o acompanhamento dessa mulher para que ela consiga se fortalecer, seguir adiante com a sua vida, saindo desses ciclos de violência”.
Casa da Mulher Brasileira fica localizada no Bairro Aeroporto, zona Norte de Teresina. Foto: pi.gov.br
Após a denúncia feita em uma delegacia, a vítima é acolhida e passa por todo o processo junto ao Ministério Público. Mesmo tendo todo o acompanhamento, muitas vítimas ainda têm medo de denunciar. A secretária relata que, “segundo uma pesquisa nacional, o obstáculo mais recorrente é que as mulheres têm medo de morrer, e elas não percebem que é o contrário, ou seja, se ela denuncia, ela pode ser salva, por isso a importância do acolhimento e do serviço humano”.
Machosfera’ e Red Pill propagam ódio contra conquistas das mulheres
Nessa rede de proteção, observa a secretária, há também outro fator muito forte, que é a dependência financeira em relação ao agressor. Ainda existem casos, inclusive atualmente, de movimentos, principalmente na internet, denominados ‘Machosfera’ e ‘Red Pill’. O primeiro é um termo usado para descrever comunidades e conteúdos na internet formados principalmente por homens que discutem masculinidade, relacionamentos e papéis de gênero. Esses grupos existem em fóruns, redes sociais, canais de vídeo e podcasts. Em muitos casos, compartilham ideias críticas ao feminismo e defendem visões tradicionais sobre o papel do homem na sociedade. Dentro da chamada machosfera, existem vários subgrupos, alguns mais moderados e outros bastante radicais.
Já o termo Red Pill (pílula vermelha) vem do filme The Matrix. No filme, tomar a “pílula vermelha” significa despertar para a “verdade” sobre a realidade. Na internet, o termo foi apropriado por alguns grupos masculinos para afirmar que homens que adotam essa visão “acordaram” para o que consideram ser a verdadeira dinâmica entre homens e mulheres.
Nos conteúdos chamados de “Red Pill”, geralmente aparecem ideias como: homens precisam ser dominantes ou emocionalmente independentes; mulheres seriam influenciadas por status ou poder nas relações; e críticas ao feminismo e às mudanças nos papéis de gênero. “Como é conhecido, eles fazem todo um serviço de desconstrução das conquistas das mulheres, que são aqueles que defendem que a mulher tem que ficar em casa, tem que cuidar do filho, tem que cozinhar, tem que limpar, tem que cuidar do marido, que ela não pode trabalhar”, diz, acrescentando que existe esse discurso de retrocesso, esse ódio às mulheres pelo que elas conseguiram avançar e conquistar nas várias áreas.
Jovem usa camisa com a frase: "não se arrependa de nada"
No fim de janeiro de 2026, um caso de violência sexual envolvendo uma adolescente de 17 anos chocou o país. A jovem foi vítima de um estupro coletivo praticado por quatro homens adultos, em um episódio marcado por extrema brutalidade.
Um dos suspeitos, Vitor Hugo de Oliveira Simonin, se apresentou voluntariamente às autoridades. O fato chamou atenção pela roupa que utilizava no momento da entrega: uma camiseta com a frase em inglês “regret nothing”, que pode ser traduzida como “não se arrepende de nada”.
Coach Red Pill e Vitor Hugo de Oliveira Simonin; este último envolvido no caso de estupro coletivo. Foto: Alex Nicodim/Anadolu Agency via Getty Images
A repercussão do crime, ocorrido no Rio de Janeiro, somada a outros episódios recentes, reacendeu discussões sobre a atuação de grupos que disseminam discurso de ódio contra mulheres, especialmente em ambientes digitais, e que acabam influenciando jovens.
Por outro lado, o chamado “coach Red Pill” responde na Justiça por acusações de tráfico de pessoas, estupro e participação em uma organização criminosa voltada à exploração sexual de mulheres. Tanto ele quanto o irmão, que também é investigado no caso, negam todas as imputações.

Diferente da frase bem popular que diz: ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’, “hoje, a gente muda essa frase para: em briga de marido e mulher, a gente mete a colher e salva a vida da mulher”, enfatiza a secretária Zenaide Lustosa, mencionando que existem vários canais de atendimento, como, por exemplo, o ‘Ei, mermã, não se cale’, por meio do WhatsApp: 0800 000 1673; o 180, do Governo Federal; o 192, no caso de urgência; e ainda a possibilidade de denunciar pelo 180. “Às vezes é uma pessoa da sua família ou uma amiga que sofre. Então, todas as pessoas têm que ter consciência de que é responsabilidade de cada um, principalmente dos homens, que são os homens que nos matam. O problema da violência não é das mulheres, é dos homens. Então, a sociedade é fundamental para que a gente avance e as mulheres continuem vivas”.
Para finalizar, Zenaide Lustosa deixa uma mensagem para as mulheres que estão vivendo em situação de violência e ainda não buscaram ajuda. “Não silencie, pois quando você silencia, você se mata e mata outras mulheres”, alerta a secretária, informando que a mulher que sofre violência fica em uma situação de vulnerabilidade muito grande, principalmente em relação à questão da saúde mental, porque muitas vezes as mulheres acham que são a causa da violência, até mesmo por usar alguma peça de roupa que possa parecer sensual para os outros, o que não é verdade, pois a violência é um problema dos homens, e a sociedade tem que intervir.
Governador Rafael Fonteles e a secretária da Mulher, Zenaide Lustosa. Foto: Reprodução/Instagram
Diferente da frase bem popular que diz: ‘em briga de marido e mulher, não se mete a colher’, “hoje, a gente muda essa frase para: em briga de marido e mulher, a gente mete a colher e salva a vida da mulher”, enfatiza a secretária Zenaide Lustosa, mencionando que existem vários canais de atendimento, como, por exemplo, o ‘Ei, mermã, não se cale’, por meio do WhatsApp: 0800 000 1673; o 180, do Governo Federal; o 192, no caso de urgência; e ainda a possibilidade de denunciar pelo 180. “Às vezes é uma pessoa da sua família ou uma amiga que sofre. Então, todas as pessoas têm que ter consciência de que é responsabilidade de cada um, principalmente dos homens, que são os homens que nos matam. O problema da violência não é das mulheres, é dos homens. Então, a sociedade é fundamental para que a gente avance e as mulheres continuem vivas”.
Para finalizar, Zenaide Lustosa deixa uma mensagem para as mulheres que estão vivendo em situação de violência e ainda não buscaram ajuda. “Não silencie, pois quando você silencia, você se mata e mata outras mulheres”, alerta a secretária, informando que a mulher que sofre violência fica em uma situação de vulnerabilidade muito grande, principalmente em relação à questão da saúde mental, porque muitas vezes as mulheres acham que são a causa da violência, até mesmo por usar alguma peça de roupa que possa parecer sensual para os outros, o que não é verdade, pois a violência é um problema dos homens, e a sociedade tem que intervir.
Halda Regina alerta: “Mulheres negras são as mais vulneráveis à violência”
Dados do Atlas da Violência, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostram que as mulheres negras são maioria entre as vítimas de violência letal no Brasil, representando mais de 60% dos casos. O estudo também aponta que estados do Nordeste, como o Piauí, apresentam forte desigualdade racial nas mortes violentas de mulheres.
De acordo com Halda Regina, presidente do Instituto da Mulher Negra do Piauí – Ayabás, “as mulheres negras, não só no Piauí, mas no Nordeste e no Brasil todo, somos o segmento mais pobre, somos maioria em chefes de família, somos, em maioria, as mulheres que não conseguem adentrar à universidade, ter uma pós-graduação, nós somos o segmento que, nessa escala financeira, a gente recebe menos do que as mulheres e os homens brancos, enfim, a gente fica abaixo dessa pirâmide”, lamenta, afirmando que essas condições, ou essa falta de condições que não são dadas às mulheres negras, fazem com que haja um empobrecimento dessa população no país.
Halda Regina é presidente do Instituto da Mulher Negra do Piauí – Ayabás. Foto: Arquivo Pessoal
Nesse contexto, argumenta Halda, quando você está dentro desse segmento como a população mais pobre, “você vai estar, logicamente, vulnerável e suscetível a todos os tipos de violência”, diz, exemplificando que, durante a pandemia, quem mais morria eram as mulheres pretas. “Então, tudo o que acontecer nesse país, por sermos a população mais pobre, a gente vai ser mais afetada”.
E, logicamente, o feminicídio e a violência doméstica são um problema nacional, conforme afirma a representante do Ayabás, assegurando que atingem todas as mulheres e todas as classes sociais. Mas, diferentemente de algumas mulheres que têm independência e autonomia e conseguem fugir da violência doméstica, é diferente para uma mulher que tem condição financeira de pegar o seu carro, viajar para outro país ou ir para outro local. “Ela vai conseguir fugir, sair da situação, o que é diferente para uma mulher preta e pobre, pois o lugar que ela tem é aquela casa, aquele barraco, e lá é onde ela quer ficar e onde tem condição de ficar. Então, se ela não tem autonomia financeira, se não tem moradia e não tem educação, se ela não estuda, se ela não tem isso, se tudo para ela é ruim, inclusive o acesso à saúde, qual a condição que ela vai se sujeitar a permanecer naquele estado de violência? É muito difícil para ela”, contextualiza Halda.
Alda Regina juntamente com demais integrantes do Instituto da Mulher Negra do Piauí – Ayabás. Foto: Arquivo Pessoal
Ela conta que existe uma rede de enfrentamento e proteção às mulheres, mas questiona como essas mulheres são, de fato, protegidas. Isso porque, às vezes, a vítima precisa fazer um BO em uma delegacia que é longe de sua casa, e ela não tem vale-transporte. “Nesses policiamentos, eles fazem realmente o seu papel, às vezes, e reivindicam as pessoas por conta da sua roupa e sua condição de vida. Então, tem uma série de fatores sociais, que é principalmente a pobreza. Isso não quer dizer que toda mulher pobre e preta não consegue denunciar. Mas, ao denunciar, ela também tem esses questionamentos: Eu vou fazer a denúncia, daí ele vai sair, mas como eu vou criar dois, três, cinco, seis, oito, dez filhos sozinhos? Como é que vai ser toda essa condição?”, observa, mencionando que a população continua empobrecida e, às vezes, se cala diante de algumas violências para, pelo menos, sobreviver em determinadas situações.

Além disso, análises do Atlas indicam que uma mulher negra tem risco significativamente maior de ser vítima de violência letal e, em estados como o Piauí, o crescimento de homicídios dessa população foi expressivo na última década.
Halda foi taxativa ao afirmar que a desigualdade é uma questão considerada ponto-chave de toda a estrutura que existe neste país, principalmente com relação ao racismo e à violência contra a mulher. Afinal, a desigualdade não se retira da sociedade. “Quando você não tem nada, não tem uma visão, uma perspectiva. Quando você sabe que enfrenta diversas dificuldades financeiras e desemprego, percebe que seus filhos, para se manterem vivos, às vezes entram no mundo da droga, então você tem todo um contexto, e isso é a desigualdade que perpassa pela vida dessas pessoas, dessas mulheres que não têm acesso a nada, não têm acesso a lazer e a entretenimento. A única coisa que ela consegue é estar dentro de um ambiente de violência e de diversas necessidades. Então, a desigualdade é o que mexe com a população negra exatamente por não ter acesso, não ter possibilidade, não ter oportunidade de ter”, relata, questionando a falta de políticas públicas para mudar a vida dessas pessoas, principalmente da população negra. “Isso é racismo. É perceber que a população preta está sempre morando nas periferias e em piores condições de vida. É a população negra que está desempregada. Isso é racismo”, sustenta.

Fica bastante evidente que muitas mulheres negras que sofrem violência também enfrentam a dependência econômica e dificuldades para denunciar seus agressores. Nesse sentido, a presidente do Instituto da Mulher Negra do Piauí esclarece que não dá para apontar quais são os fatores que realmente fazem com que essas mulheres permaneçam na violência.
Ao ser indagada sobre quais são os obstáculos, ela responde: “Os obstáculos são diversos e criados de diversas formas. A gente não pode apontar que é só pobreza e não tem como sair. Tem várias maneiras, pois você se relaciona com alguém e, logicamente, tem dependência emocional, tem afetos, tem sentimentos e essa subjetividade que, às vezes, mesmo com tanta violência, você ainda tem ligação afetiva com aquela pessoa por conta dos filhos”, contextualiza Halda, argumentando que muitas mulheres pensam logo em não abandonar seus filhos, pois vem a justificativa: “Como é que vai ficar meu filho sem a mãe, sem o pai, vivendo de formas separadas? Então, tem várias questões subjetivas dentro dessa relação de violência e, logicamente, quando a mulher se dá conta disso, de que não pode ficar, mesmo com todo esse sentimento, porque ela está perdendo a vida dela, é que ela procura ajuda”, pondera.
Ela disse que a vítima precisaria ter uma rede de proteção que agisse imediatamente quando o homem violentasse essa mulher, quando ele a ameaçasse, para que ela pudesse se sentir protegida de fato. “É preciso ter uma rede de apoio da vizinhança, da comunidade, da polícia, da segurança pública, da saúde, da educação. Pois, se não tiver toda uma rede que possa acolher essa mulher e entender que ela precisa sair dali, ela não vai conseguir”, avalia Halda Regina.
Dependência financeira dificulta rompimento da violência
O fato é que é difícil uma mulher pobre sair da violência, porque ela não tem uma casa que pertença a ela. Pois, na maioria das vezes, mora na mesma residência com a sogra, dividindo o ambiente com três e até quatro famílias dentro de uma casa. E, às vezes, a mesma não consegue romper com tudo isso, porque tem dependência financeira. “Ela não tem autonomia para dizer que é o meu espaço, que é o meu lugar. E, muitas vezes, mesmo tendo toda essa autonomia, isso acontece”, lamenta.
Ela afirmou que um dos obstáculos que essa mulher vítima de violência enfrenta é o machismo. Isso porque as mulheres já entenderam que não nasceram para serem agredidas, não nasceram para morrer ou serem espancadas, “mas nós nascemos para conviver com as pessoas. Mas os homens entendem isso? Eles já compreenderam que a gente precisa ter esse tratamento igual, ou seja, homens e mulheres, e que a mulher não é inferior ao homem, intelectualmente, nas suas capacidades técnicas, capacidade biológica, na sua inteligência e na sua sabedoria? Ela não é, mas parece que a gente precisa entender isso. Esse é o obstáculo maior, enfim, é entender que a gente vive num país desigual, mas que a gente precisa minimamente respeitar as mulheres”.
Movimento de mulheres negras durante atividade de combate à violência contra mulheres. Foto: Arquivo Pessoal
Para Halda, é muito difícil os homens não entenderem que o machismo tem matado essas mulheres e as famílias, “afinal, não mata uma mulher somente, mas mata os filhos, mata a mãe, a mãe da mãe, a mãe do pai, toda a família envolvida nesse crime. Então, acho que o obstáculo maior é passar por esse processo pedagógico de uma mudança de pensamento, de uma mudança de postura em relação à vida das mulheres”, argumenta, acrescentando que a vida das mulheres importa para todo mundo, então não é possível que todos se calem diante do machismo.
Na opinião dela, o poder público avançou, mesmo que de forma lenta, no sentido de alcançar as mulheres que vivem na periferia e em comunidades mais vulneráveis.
Se a gente falar que o poder público não teve avanço, a gente com certeza não vai valorizar a luta das mulheres, porque essa luta foi, é e será sempre para que a gente possa mudar e criar leis que possam transformar a sociedade”, diz Halda Regina.
Ela foi mais incisiva em sua afirmação sobre o papel do poder público nas ações voltadas para proteger as vítimas de violência doméstica. “O poder público tem feito muito pouco, pois a gente não tem conseguido diminuir o número de mulheres assassinadas neste país”, criticou, esclarecendo que o poder público pode atuar com maior rigor.
Halda Regina afirmou que está mais do que no momento de promover políticas públicas começando desde cedo, como a oferta de disciplinas sobre educação de gênero nas escolas, por exemplo, “porque, se os adultos continuam fazendo, as crianças podem e devem mudar o seu pensamento. Tem que ter políticas públicas voltadas para ensinar, por meio da educação, da comunicação, desse espaço escolar também, para mudar a vida e a cabeça dessas pessoas por meio de uma formação”, enfatiza, mencionando que o poder público poderia ter mais ações governamentais voltadas para as mulheres, seja nas escolas, nas igrejas e na comunidade. Enfim, todos os espaços de formação e aprendizagem deveriam falar sobre igualdade entre homens e mulheres, igualdade de gênero e sobre a importância da mulher.
Roda de conversa aborda violência contra a mulher na periferia de Teresina
O Clube da Hotelaria e Gastronomia abriu as portas para a comunidade da Santa Maria da Codipi, zona Norte de Teresina, no dia 14/03, durante a realização da 6ª edição do Março Mulher, evento promovido pelo Sindicato da Hotelaria, Gastronomia, Lavanderia e Similares do Estado do Piauí (Sintshogastro-PI), em parceria com a Fundação da Hotelaria e Gastronomia. O ponto alto da programação foi a roda de conversa com o tema “Violência contra a mulher”, que contou com a participação de várias convidadas.
No local, serviços como emissão da nova carteira de identidade, corte de cabelo, limpeza de pele, teste rápido de HIV, orientação sobre saúde sexual, cuidados com a higiene bucal, distribuição de kits para a criançada, além de teste de glicemia e aferição da pressão arterial mobilizaram a comunidade, que prestigiou o Março Mulher.
Ana Cleide, representante da SEMPI, falou sobre a importância de discutir o tema violência contra mulher. Foto: Gilson Rocha
Para compor a mesa de abertura da roda de conversa sobre violência contra a mulher, foram convidados a secretária da Mulher, Thamiris Silva; o presidente do Sintshogastro-PI, Alex Rocha; o secretário jurídico, Franklin Batista; Noélia Sampaio, secretária-geral da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Piauí (OAB-PI); Ana Cleide, diretora de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria Estadual das Mulheres (SEMPI); Marlleny Lima, secretária de Mulheres da Contracs-CUT; Assunção Aguiar, superintendente de Igualdade Racial do Piauí; e Elizete Silva, coronel da Polícia Militar do Piauí.
Thamiris Silva, secretária da Mulher do Sintshogastro-PI, organizou o Março Mulher. Foto: Gilson Rocha
Durante o debate, os participantes destacaram a importância de fortalecer políticas públicas que garantam a segurança e a proteção das mulheres, além de divulgar os serviços oferecidos pelo Governo do Estado.
Ana Cleide parabenizou a iniciativa do Sintshogastro-PI em promover o evento e trazer formação e orientação sobre o enfrentamento à violência contra a mulher. “Queremos parabenizar a diretoria do sindicato por trazer esse tema em um momento em que o Brasil enfrenta uma verdadeira epidemia de feminicídio”, destacou.
Por sua vez, Alex Rocha ressaltou que a educação deve começar em casa e na escola como forma de transformar essa realidade. “Esse é o principal caminho para mudar essa situação. Pais e mães, eduquem seus filhos”, afirmou, acrescentando que muitas leis já existem, mas precisam ser cumpridas e respeitadas.
Presidente do Sintshogastro-PI, Alex Rocha, destacou importância da educação. Foto: Gilson Rocha
Participando mais uma vez do Março Mulher, a coronel Elizete Silva destacou a importância de valorizar todas as mulheres e relembrou as conquistas históricas alcançadas ao longo dos anos, como o direito de votar e ser votada.
Coronel Elizete Lima enalteceu as conquistas das mulheres. Foto: Gilson Rocha
Já Eloá Sena, secretária de Finanças do sindicato, reforçou a importância de as mulheres se valorizarem e denunciarem casos de violência aos órgãos competentes. “Não tenham medo de falar e de sair de uma vida que faz mal”, alertou a sindicalista, conclamando todos a se unirem em torno de uma corrente que possa valorizar e defender as mulheres de qualquer tipo de violência. A mobilização coletiva, o acesso à informação e o fortalecimento das redes de apoio mostram que é possível avançar na construção de uma sociedade mais justa, segura e igualitária para todas.
Fonte: Bruna Verena, Sintshogastro-PI, Instituto da Mulher Negra do Piauí, DPMGV