Educação

DESCOBERTA CIENTÍFICA

Planta carnívora rara e ameaçada de extinção é registrada pela primeira vez no Piauí

Sem registros na Mata Atlântica há mais de 80 anos, a espécie reapareceu agora em uma área alagada do Cerrado do Piauí

Por Redação

Quarta - 11/03/2026 às 12:53



Foto: Francisco Sousa Planta carnívora rara Utricularia warmingii é registrada pela primeira vez no Nordeste em área alagada do Piauí.
Planta carnívora rara Utricularia warmingii é registrada pela primeira vez no Nordeste em área alagada do Piauí.

Uma espécie rara de planta carnívora aquática foi registrada pela primeira vez no Nordeste do Brasil. Pesquisadores descobriram Utricularia warmingii no estado do Piauí, levando-os a reavaliar o risco de extinção da espécie no país. Com base nos novos dados, o estudo sugere que a planta seja classificada como “Em Perigo” no Brasil, devido à sua ocorrência restrita, populações isoladas e ameaças crescentes aos ambientes aquáticos onde vive. A pesquisa foi liderada por pesquisadores da Universidade Federal do Piauí e contou com a participação do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA). O trabalho foi publicado na revista científica Kew Bulletin.

Sem registros em algumas regiões há mais de 80 anos, a planta carnívora, que pertence à família Lentibulariaceae, reapareceu agora em uma área alagada do interior do Piauí, no município de Campo Maior, a 80 quilômetros da capital, Teresina, durante um inventário de plantas aquáticas realizado em 2023. A planta vive submersa em águas rasas, tem até 6 centímetros de altura e captura pequenos organismos aquáticos por meio de estruturas microscópicas semelhantes a armadilhas, chamadas utrículos, típicas das plantas carnívoras do gênero Utricularia. As flores brancas, tingidas de amarelo e vermelho, surgem em uma haste inflada cheia de ar, que ajuda a planta a flutuar na superfície.

Foto: Francisco Sousa

Apesar de ocorrer em alguns países da América do Sul, como Bolívia, Colômbia e Venezuela, os registros da espécie são raros e bastante espaçados. No Brasil, ela já havia sido registrada no Pantanal e em áreas do Sudeste, mas algumas dessas populações podem ter desaparecido ao longo do tempo. Em São Paulo, por exemplo, não há registros desde 1939, o que sugere possível extinção local. A ausência de coletas posteriores à que levou à descrição da espécie, realizada em Caldas/MG, em 1877, pode significar que esteja extinta também em Minas Gerais.

“A descoberta no Piauí amplia o conhecimento sobre a distribuição da espécie, mas também evidencia sua vulnerabilidade. Até agora, a população encontrada parece estar restrita a um único local, e novas buscas na região não localizaram outras ocorrências”, destaca o professor Francisco Ernandes Leite Sousa, mestrando da UFPI e líder da pesquisa.

“Espécies como Utricularia warmingii podem ter distribuição geográfica ampla no mapa, mas na prática ocupam apenas pequenos fragmentos de habitat. Isso as torna especialmente vulneráveis à perda de áreas úmidas”, explica o pesquisador Paulo Minatel Gonella, do Instituto Nacional da Mata Atlântica e coautor do estudo.

Foto: Francisco Sousa

Os ambientes onde a espécie ocorre — lagoas rasas e áreas alagadas temporárias — estão entre os ecossistemas mais ameaçados do planeta. Mudanças no regime de cheias, expansão agropecuária, uso de fertilizantes, introdução de espécies invasoras e alterações na paisagem podem comprometer a qualidade da água e a sobrevivência dessas plantas especializadas.

No Brasil, os registros confirmados indicam que as populações da espécie estão separadas por grandes distâncias e ocorrem em poucos locais isolados. A área real ocupada pela espécie no Brasil é extremamente pequena, em torno de 36 km². Esse cenário reduz as chances de recolonização natural caso uma população desapareça, aumentando o risco de extinção regional.

Foto: Francisco Sousa

“Esse caso também mostra como ainda conhecemos pouco a flora de várias regiões do país. Áreas como o interior do Nordeste permanecem subamostradas, e novos estudos podem revelar espécies raras ou populações ainda desconhecidas”, afirma Gonella.

Os autores destacam que intensificar pesquisas de campo em regiões pouco exploradas é essencial para compreender melhor a biodiversidade brasileira e orientar estratégias de conservação. A descoberta reforça a importância de proteger ambientes aquáticos naturais, especialmente áreas úmidas temporárias, que abrigam espécies altamente especializadas e sensíveis às mudanças ambientais.

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