Uma aula inaugural realizada nesta terça-feira (10), no Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL) da Universidade Federal do Piauí (UFPI), reuniu estudantes e pesquisadores para discutir o tema “Cuidar: uma perspectiva feminista, mais-que-humana e situada no Brasil”. O encontro também marca o lançamento do livro “As Narrativas e Memórias do Cuidado: as Quebradeiras de Coco Babaçu e as Mães Palmeiras”.
A atividade é conduzida pela pesquisadora Adriana Ressiore Campodonio, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Wageningen, na Holanda. A obra foi organizada por ela, com coorganização de Laira Splinter e apresentação da professora Carmen Lúcia Silva Lima, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPI.
Segundo Adriana, o livro nasce de uma preocupação em devolver às comunidades parte do conhecimento compartilhado durante a pesquisa acadêmica.
Principalmente, eu acho que é importante para toda pesquisa fazer algo que seja relevante para as comunidades, mas também que de alguma forma retorne para elas. Como fiz o doutorado tão longe, foi muito importante conseguir voltar e retribuir esse conhecimento.
A pesquisadora explicou que o livro foi construído a partir das próprias falas das quebradeiras de coco, reunindo memórias, reflexões e experiências dessas mulheres. Segundo ela, a obra é pensada principalmente para as próprias quebradeiras, já que grande parte do conteúdo é formada por relatos delas, com o objetivo de preservar essa memória e evidenciar o valor do conhecimento produzido por essas mulheres. O trabalho busca registrar a relação histórica das comunidades com os babaçuais e destacar o papel das quebradeiras como guardiãs da biodiversidade e protagonistas de movimentos sociais.
Adriana ressalta que essas mulheres representam um exemplo de resistência socioambiental.
Para mim, as quebradeiras são pensadoras, são filósofas, são mães e cuidadoras. São mulheres de muita inspiração e um exemplo de resistência nacional.
O lançamento ocorreu no contexto do mês dedicado à luta das mulheres. Durante mobilizações recentes realizadas em Esperantina, quebradeiras também chamaram atenção para o aumento da violência e do feminicídio contra mulheres.
Segundo a autora, essa é uma pauta que segue presente nas mobilizações do movimento.
Muitas quebradeiras já foram assassinadas nas próprias casas ou no campo, indo quebrar coco. É um problema muito sério que precisa de atenção da sociedade.
Mestranda Sandra Silva e Professora Élida Cardoso
Opinião das quebradeiras de coco babaçu
Para Sandra Silva Cardoso, mestranda em Antropologia e integrante de comunidades de quebradeiras de coco do território dos Cocais, o registro dessas histórias também representa uma forma de mostrar a relação afetiva das quebradeiras de coco pela flora. Ela é uma das três primeiras estudantes oriundas de comunidades de quebradeiras de coco a ingressar no mestrado da Universidade Federal do Piauí (UFPI), por meio de cotas destinadas a esses grupos tradicionais.
Segundo Sandra, a presença na universidade também fortalece a possibilidade de levar para o espaço acadêmico os conhecimentos produzidos nas comunidades, muitas vezes transmitidos de geração em geração de forma oral.
Ao comentar sobre o livro lançado durante a aula inaugural, ela destacou que a obra foi construída a partir de uma relação direta com as mulheres do território.
Esse livro que a Adriana construiu foi junto com a gente lá no nosso território. Ela fez várias visitas às comunidades e foi perguntando como era o nosso sentimento com a palmeira do babaçu. A gente se sente muito feliz que isso foi para um livro, porque a gente precisa disso escrito, porque as memórias às vezes vão se perdendo.
Entrega dos livros a comunidade de quebradeiras
A entrega dos exemplares aconteceu na última sexta-feira (8), durante um ato realizado por quebradeiras de coco em Esperantina, em referência ao Dia Internacional da Mulher. Na ocasião, a pesquisadora Adriana aproveitou a presença de diversas trabalhadoras reunidas para devolver simbolicamente o material produzido a partir das próprias experiências delas. Segundo ela, o livro reúne principalmente pensamentos das quebradeiras e busca guardar essa coletividade, além de servir como instrumento de fortalecimento para uso em escolas, articulações políticas e processos de reivindicação, valorizando o conhecimento dessas mulheres e mostrando o interesse de pesquisadores em registrar e divulgar suas histórias.
Foto: Arquivo pessoal de Adriana
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