Thiago Marcantonio Ferreira, delegado da Polícia Federal (PF) que é identificado internamente como um quadro do campo lavajatista, ocupa desde outubro de 2025 um cargo central no gabinete de André Mendonça, que assumiu a relatoria do Caso Master no lugar de Dias Toffoli, no Supremo Tribunal Federal. Conforme consta na Portaria nº 220, de 24 de outubro de 2025, ele foi nomeado para o cargo em comissão de assessor de ministro, nível CJ-3, no gabinete de Mendonça.
O nome chama atenção porque a trajetória de Marcantonio cruza áreas sensíveis da Polícia Federal, do Ministério da Justiça e, agora, do Supremo. Os registros oficiais mostram que ele já ocupava funções de chefia na PF em 2019, apareceu em 2020 nas agendas de autoridades do Ministério da Justiça e, no mesmo ano, foi nomeado por André Mendonça para a Diretoria de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas, a Seopi, conforme a Portaria nº 439, publicada no Diário Oficial de 5 de agosto de 2020.
Da PF ao núcleo do Ministério da Justiça
Antes de chegar ao Supremo, Marcantonio já havia consolidado espaço em áreas estratégicas da Polícia Federal.
Reprodução DOU
Em 2018 ele foi nomeado Chefe da Divisão de Assuntos Sociais e Políticos e em 1º de março de 2019, foi designado como substituto eventual do coordenador-geral de Polícia Fazendária da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado. Em 9 de dezembro de 2019, voltou a aparecer formalmente como chefe da Divisão de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico.
O próprio currículo funcional publicado na Revista Brasileira de Ciências Policiais, periódico institucional da PF, lista passagens pela DICOR, pela chefia da Divisão de Assuntos Sociais e Políticos, pela Divisão de Repressão a Crimes contra o Meio Ambiente e o Patrimônio Histórico, pela Coordenação-Geral de Polícia Fazendária, pela assessoria especial do ministro da Justiça e, depois, pela Diretoria de Inteligência do MJSP. A sequência ajuda a explicar por que seu nome já circulava em postos de comando quando o ministério ainda era chefiado por Sergio Moro.
Os registros mostram que ele já ocupava funções de chefia na PF em 2019 e, em julho de 2020, passou a aparecer oficialmente no entorno imediato do ministério da Justiça. Na agenda oficial de 13 de julho de 2020, a página de autoridades já traz “Agenda de Thiago Marcantonio Ferreira” no espaço da assessoria especial do ministro. Em 20 de julho de 2020, ele aparece nominalmente como “Thiago Marcantonio Ferreira, assessor especial”.
Nomeação por Mendonça para a Inteligência da Seopi
O salto político mais importante veio semanas depois. Em 3 de agosto de 2020, o Ministério da Justiça divulgou nota oficial informando a abertura de sindicância investigativa e a substituição da chefia da Diretoria de Inteligência da Seopi, no auge da crise do chamado “dossiê antifascista”. No dia seguinte, André Mendonça assinou a Portaria nº 439, que nomeou Thiago Marcantonio Ferreira para o cargo de diretor de Inteligência da secretaria.
A cronologia importa. Marcantonio assume formalmente a Diretoria de Inteligência da Seopi no momento em que o órgão estava sob escrutínio público e jurídico. Em 2022, o Supremo registrou que julgou inconstitucionais atos do Ministério da Justiça ligados à produção e ao compartilhamento de informações sobre vida pessoal e escolhas políticas de cidadãos e servidores no episódio do “dossiê dos antifascistas”, conforme noticiado pelo próprio tribunal na decisão da ADPF 722. O que a documentação permite afirmar com segurança é que Marcantonio foi nomeado por Mendonça para a Inteligência da Seopi exatamente nesse contexto de crise institucional.
Projeto Excel e a área de extração de celulares
Há outro ponto do percurso que pesa no cenário político. Em documento oficial do Ministério da Justiça ligado à inexigibilidade de licitação de 2021, Thiago Marcantonio Ferreira aparece como responsável pela demanda de atualização de 30 licenças de software de extração de dados de dispositivos móveis. O texto menciona expressamente o chamado “Projeto Excel” e trata da estruturação de laboratório especializado em extração, análise e cruzamento de dados obtidos de celulares.
Não se trata de detalhe lateral. O documento mostra que Marcantonio atuou formalmente em uma área sensível do aparato de inteligência, voltada à obtenção e ao tratamento de dados digitais extraídos de aparelhos móveis. Em Brasília, esse tipo de atribuição sempre teve peso político próprio, sobretudo quando circula entre investigações de grande impacto.
A sucessão por Marília Alencar
Marcantonio deixou a Diretoria de Inteligência da Seopi em maio de 2021. Na sequência administrativa daquele período, a chefia do setor passou a Marília Ferreira de Alencar, nome conhecido do bolsonarismo na área de segurança pública. Mais tarde, o próprio STF noticiou que Marília foi condenada a 8 anos e 6 meses de prisão no julgamento da trama golpista, conforme registro oficial publicado pela Corte em notícia sobre o desfecho das ações penais do caso no portal do tribunal.
A sucessão não autoriza inferência automática sobre conduta individual de Marcantonio. O que ela evidencia, no entanto, é o ambiente político e administrativo em que ele estava inserido dentro do Ministério da Justiça: a Seopi, naquele momento, já havia se tornado um dos polos mais controversos do bolsonarismo na área de inteligência e segurança pública.
O salto para o gabinete de Mendonça no STF
Reprodução DOU
A etapa mais sensível da trajetória veio no Supremo. Conforme consta na Portaria nº 220, de 24 de outubro de 2025, Marcantonio foi nomeado para o cargo de assessor de ministro no gabinete de André Mendonça. O dado fecha uma trilha institucional nítida: chefias na PF, presença na assessoria especial do Ministério da Justiça, nomeação por Mendonça para a Inteligência da Seopi, atuação formal em documento ligado à extração de dados de celulares e, por fim, a chegada ao gabinete do mesmo Mendonça no Supremo.
Segundo fonte da PF ouvida pela Fórum, Marcantonio é visto internamente como um quadro formado no ambiente político e funcional do lavajatismo. Os documentos públicos não transformam essa caracterização em rótulo oficial, mas sustentam algo objetivo e politicamente relevante: ele atravessou postos estratégicos da Polícia Federal, passou pelo núcleo do Ministério da Justiça bolsonarista, comandou a Inteligência da Seopi no auge da crise do “dossiê antifascista” e terminou instalado no gabinete de um ministro do STF.
Em política, esse encadeamento não é detalhe. É uma trajetória que ajuda a entender como quadros formados em áreas duras da PF e da inteligência de Estado continuaram a ocupar posições centrais de poder, mesmo depois da derrocada pública da Lava Jato e do desgaste do bolsonarismo.
Fonte: Revista Fórum
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