Artigos & Opinião

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CONTRAPONTO

Não sei, só sei que foi assim: o que a narrativa sobre Margarete Coelho escondeu

Escrevo estas linhas como homem, como eleitor que se posiciona à esquerda do espectro político e que, inclusive, pretende votar novamente no PT

Por Hemerson Daniel (*)

Quinta - 19/03/2026 às 13:38



Foto: Reprodução Margarete Coelho tem trajetória marcada por atuação política e episódios de exclusão em decisões partidárias
Margarete Coelho tem trajetória marcada por atuação política e episódios de exclusão em decisões partidárias

Li com atenção o artigo intitulado "Preterida no PP, Margarete Coelho paga o preço por ter virado as costas para o PT", de autoria do jornalista Luiz Brandão, publicado portal Piauí Hoje. É legítimo e saudável, em uma democracia, que vozes distintas ocupem o debate público com suas leituras sobre os fatos políticos. A liberdade de imprensa e de opinião é um dos pilares mais sagrados do Estado Democrático de Direito, e jamais pleitearia que fosse diferente. Peço, contudo, licença ao leitor e ao próprio autor para apresentar uma análise sob outra perspectiva, não a perspectiva de quem deseja polemizar por polemizar, mas a de quem acredita que certas narrativas, quando aceitas sem questionamento, perpetuam injustiças históricas que transcendem nomes e siglas partidárias.

Escrevo estas linhas como homem, como eleitor que se posiciona à esquerda do espectro político e que, inclusive, pretende votar novamente no Partido dos Trabalhadores para a Presidência da República neste ciclo eleitoral. Não me move, portanto, nenhuma agenda antipartidária, nenhum ressentimento ideológico, nenhuma trincheira sectária. O que me move é algo mais profundo: a convicção de que, quando uma mulher pública é repetidamente descartada pelas engrenagens do poder, seja pela esquerda, seja pela direita, e a resposta da opinião publicada é culpá-la por sua própria destruição, algo está estruturalmente errado não apenas na política, mas na maneira como narramos a política.

O artigo do senhor Brandão, com todo o respeito que sua longa e respeitável carreira jornalística merece, opera uma inversão analítica que precisa ser desnudada. E essa inversão, como pretendo demonstrar, não é um mero deslize editorial: ela é sintoma de uma patologia cultural muito mais ampla, descrita com rigor por algumas das maiores pensadoras do século XX e XXI. É sobre essa patologia, e sobre a mulher que é seu mais recente alvo, que este texto se debruça.

A tese central do artigo é cristalina: Margarete Coelho estaria "pagando o preço por ter virado as costas para o PT". Os números, segundo o autor, "não mentem", ela só teria perdido quando abandonou a órbita petista. A conclusão implícita é de que o destino político atual de Margarete é uma espécie de punição kármica, uma consequência natural de sua suposta deslealdade. Ocorre que essa narrativa inverte a cronologia dos fatos de maneira flagrante.

Em 2014, Margarete Coelho foi peça fundamental para a vitória de Wellington Dias ao governo do Piauí, tornando-se a primeira mulher a ocupar a vice-governadoria na história do estado. Durante todo o mandato (2015-2018), exerceu a função com lealdade documentada: assumiu dezenas de interinidades, coordenou comitês de crise na segurança pública e manteve uma postura colaborativa e discreta, sem jamais criar embaraços ao governador ou ao partido líder da coalizão.

Quando chegou o momento de montar a chapa para a reeleição de 2018, o caminho natural, pela lógica da continuidade administrativa, da lealdade demonstrada e do mérito funcional, seria a manutenção de Margarete na vice-governadoria. Mas não foi o que aconteceu. O Partido dos Trabalhadores, em um cálculo frio de controle sucessório, operou nos bastidores para substituí-la por Regina Sousa, um quadro histórico da própria sigla e que merece todo nosso respeito e admiração. A motivação não foi incompetência de Margarete, não foi escândalo de corrupção, não foi insatisfação popular. A motivação foi a necessidade puramente partidária de garantir que, quando Wellington Dias deixasse o governo em 2022 para disputar o Senado, a linha sucessória estivesse inteiramente sob controle petista, o que é legítimo de qualquer partido político, mas meu ponto é outro.

A dor dessa exclusão foi exteriorizada pela própria Margarete em um desabafo público que marcou a política local: "Eu pedi um critério para o governador e infelizmente não foi o capital político". Pergunto ao leitor, com a sinceridade que o momento exige: o que se esperava que ela fizesse?

Que, após ser descartada pelo partido aliado no auge de sua colaboração leal, simplesmente desaparecesse da vida pública? Que aceitasse, em silêncio devoto, a demolição de sua trajetória em nome de um cálculo sucessório que a tratou como peça substituível? Que permanecesse em uma aliança onde seu papel seria, eternamente, o de coadjuvante descartável?

A resposta a essas perguntas define o tipo de democracia que desejamos. Se respondemos "sim", estamos dizendo que mulheres na política devem aceitar, com gratidão e subordinação, qualquer migalha que as siglas hegemônicas lhes ofereçam. Se respondemos "não", como a decência democrática exige, então devemos reconhecer que Margarete Coelho não "virou as costas" para ninguém. Ela sobreviveu a um descarte. E sobreviver a um descarte não é traição: é resiliência.

O sociólogo Pierre Bourdieu, em sua obra seminal "A Dominação Masculina", cunhou o conceito de violência simbólica para descrever um tipo de dominação que não opera pela força bruta, mas pela naturalização das hierarquias. A violência simbólica é aquela que a própria vítima não reconhece como violência, porque as categorias de percepção que ela utiliza para compreender o mundo foram forjadas pela ordem dominante. É a violência que se disfarça de senso comum, de "é assim que as coisas funcionam", de "ela que escolheu esse caminho".

O artigo do senhor Brandão, sem que talvez o autor tenha consciência disso, opera exatamente nesse registro. Ao construir uma narrativa em que Margarete Coelho é a agente de sua própria queda, "virou as costas", "trocou o certo pelo duvidoso", "seguiu cegamente", o texto naturaliza a ideia de que mulheres na política devem se manter nos marcos da lealdade incondicional a quem as "acolheu", sob pena de perderem o direito à legitimidade. Há, nessa construção retórica, um eco perturbador do que Bourdieu diagnosticou: a transmutação de uma relação de dominação em uma relação de dever moral.

A filósofa Simone de Beauvoir, cuja obra "O Segundo Sexo" inaugurou o pensamento feminista moderno, já demonstrava em 1949 que a mulher é historicamente constituída como o Outro, o ser que existe em função de, em relação a, como complemento de. Quando o artigo sugere que Margarete "brilhou ao lado dos petistas" e "viu a sorte mudar" quando se afastou deles, está operando rigorosamente dentro dessa lógica beauvoiriana: a mulher é legível apenas como satélite. Ela brilha quando orbita o astro masculino correto; ela se apaga quando ousa ter gravitação própria.

Mas a contribuição mais cirúrgica para compreender o fenômeno que estamos analisando vem da antropóloga argentina Rita Laura Segato. Em "As Estruturas Elementares da Violência", Segato demonstra que a violência contra as mulheres, em todas as suas formas, da física à simbólica, não é um desvio do sistema, mas sim o próprio mecanismo de manutenção do sistema. A exclusão de mulheres dos espaços de poder não é um erro de cálculo, uma falha pontual ou uma consequência de escolhas individuais erradas. É a norma. É o modo como o patriarcado político se reproduz.

Aplicando a lente de Segato ao caso piauiense: Margarete Coelho não foi descartada em 2018, em 2022 e em 2026 porque fez escolhas equivocadas. Ela foi descartada porque o sistema político opera com uma gramática que admite mulheres como escudos temporários em tempos de crise, mas as expulsa sistematicamente quando os espaços de poder real são loteados. O descarte não é acidental. Ele é estrutural.

Se o artigo do senhor Brandão pretende usar a saída de Margarete do campo petista como prova de sua suposta deslealdade, é imprescindível que examinemos, com a mesma lupa, o histórico do próprio Partido dos Trabalhadores no Piauí em relação aos seus aliados. Porque a verdade inconveniente é que o PT piauiense possui um extenso currículo de descarte pragmático de parceiros quando o cálculo de poder assim exige.

Tomemos o caso do Partido Socialista Brasileiro (PSB). Em 2006, o PSB indicou Wilson Martins como vice-governador na chapa vitoriosa de Wellington Dias, ajudando a consolidar o projeto petista no estado. Wilson Martins ascendeu ao governo e se reelegeu com apoio da base aliada. Contudo, quando os interesses nacionais e estaduais divergiram em 2014, o PT não hesitou em romper frontalmente com o governo do PSB, então sob Zé Filho (MDB), após a desincompatibilização de Martins, e lançar novamente Wellington Dias contra seus antigos aliados. O partido que co-governou o estado por anos passou a atacar ferozmente a gestão que ele próprio ajudara a eleger e compor. A aliança, evidentemente, só era válida enquanto o PT detivesse a cabeça de chapa.

Mas o exemplo mais revelador, e mais recente, vem de dentro da própria família petista. Nas articulações para as eleições de 2026, Wellington Dias, o maior nome do petismo piauiense, o homem que construiu a hegemonia do partido no estado ao longo de mais de duas décadas, tem sido progressivamente isolado pelo governador Rafael Fonteles, seu próprio afilhado político. Dias tentou emplacar o nome de seu filho, Vinícius Dias, como vice-governador na chapa de reeleição de Fonteles. A resposta do governador foi esvaziá-lo, sinalizando preferência por seu aliado Washington Bandeira. O tensionamento se tornou tão agudo que, em março de 2026, ambos precisaram vir a público admitir "divergências" na condução política.

Que o leitor reflita sobre a ironia: se o PT não hesita em isolar os interesses do próprio fundador de sua hegemonia estadual, o homem sem o qual o Palácio de Karnak jamais teria se tornado petista, com que autoridade moral a narrativa jornalística pode sugerir que Margarete Coelho teria tido um destino diferente caso permanecesse submissa à sigla? A história demonstra, com fatos e datas, que a lealdade ao PT não constitui seguro contra o descarte. A lealdade, no ecossistema político piauiense, é uma via de mão única: é exigida de quem está abaixo, mas jamais praticada por quem está acima.

Heleieth Saffioti, uma das maiores sociólogas brasileiras, desenvolveu em "Gênero, Patriarcado, Violência" uma análise demolidora sobre como o patriarcado se entrelaça com o capitalismo e o racismo para produzir uma tripla opressão que estrutura as relações sociais brasileiras. Saffioti demonstra que o patriarcado não é uma relíquia arcaica, mas sim uma engrenagem contemporânea que se adapta e se reconfigura para manter intactas as posições de poder masculino.

O descarte de Margarete Coelho — pelo PT ontem, pelo PP hoje — não é um capítulo de uma "novela" política, como o artigo sugere. É a manifestação concreta daquilo que Saffioti chama de "simbiose patriarcado-capital": um sistema em que o corpo e o trabalho das mulheres são apropriados quando necessários e descartados quando inconvenientes.

É impossível analisar o episódio de 16 de março de 2026 sem recorrer à provocação intelectual mais poderosa que a teoria pós-colonial produziu nas últimas décadas: "Pode o Subalterno Falar?", de Gayatri Chakravorty Spivak. O ensaio, publicado originalmente em 1985, interroga as condições estruturais que impedem os sujeitos subalternizados de enunciar sua própria narrativa, de serem ouvidos em seus próprios termos, de participarem das decisões que os afetam.

No dia 16 de março, Margarete Coelho, a mulher que havia carregado a oposição piauiense nas costas durante todo o ano de 2025, quando nenhum cacique queria enfrentar um governador com 84% de aprovação; a mulher que viajou o estado inteiro formulando críticas estruturais à gestão petista; a mulher que abriu mão de disputar cargos proporcionais para se dedicar inteiramente ao projeto majoritário, não estava presente na reunião que decidiu seu destino político. Estava em viagem institucional à Índia, a serviço do SEBRAE.

A live que anunciou sua substituição por Joel Rodrigues foi transmitida da residência do senador Ciro Nogueira. Participaram homens: o próprio Ciro, Joel Rodrigues, Sílvio Mendes, Jeová Alencar, os deputados Júlio Arcoverde e Átila Lira. A única mulher presente era Eliane Nogueira, mãe do senador, ali não na condição de agente político, mas na de anfitriã familiar. A colunista Cinthia Lages, do portal MeioNews, capturou a essência do momento ao evocar o lema do movimento das pessoas com deficiência: "Tudo sobre nós, sem nós".

Spivak nos ensina que o silenciamento do subalterno não precisa ser um ato de censura direta. Basta que as estruturas de poder façam com que a fala do sujeito subalternizado não tenha lugar, não tenha momento, não tenha plateia. Margarete não foi censurada. Não precisou ser. Simplesmente não havia cadeira para ela na sala onde seu próprio destino foi decidido.

O filósofo político Niccolò Machiavel, em "O Príncipe", obra fundadora da ciência política moderna, já alertava no século XVI que, na gramática do poder, a gratidão é a mais frágil das moedas. O Príncipe que confia na gratidão de seus súditos perece; o que confia na necessidade, prospera. O que Machiavel não antecipou, porque escrevia de dentro de um mundo exclusivamente masculino, é que, na política contemporânea, essa lógica da ingratidão estrutural opera com uma brutalidade especialmente acentuada contra as mulheres. Homens descartados pelo sistema frequentemente são realocados em posições de consolação: uma suplência, uma diretoria, uma secretaria. Mulheres descartadas são simplesmente apagadas. O partido, como confirma o próprio artigo do senhor Brandão, sequer garantiu a Margarete um espaço de compensação à altura de sua contribuição.

A historiadora italiana Silvia Federici, em sua obra monumental "Calibã e a Bruxa: Mulheres, Corpo e Acumulação Primitiva", demonstrou com erudição devastadora como a transição para o capitalismo na Europa foi acompanhada por uma guerra sistemática contra as mulheres, as "caças às bruxas" dos séculos XVI e XVII. Federici prova que essa perseguição não foi um surto de irracionalidade medieval, mas sim um processo deliberado de expropriação: ao destruir as redes de poder feminino (curandeiras, parteiras, líderes comunitárias), o nascente sistema capitalista logrou submeter o corpo e o trabalho reprodutivo das mulheres ao controle masculino e estatal.

A analogia com o sistema político brasileiro contemporâneo não é meramente metafórica. Observemos o padrão com olhos federicianos: Margarete Coelho investiu seu capital intelectual, sua formação acadêmica de doutora, sua capacidade administrativa e seu tempo de vida na construção de infraestruturas políticas que beneficiaram lideranças masculinas. Ela estabilizou o governo de Wellington Dias como vice-governadora. Ela relatou projetos legislativos tóxicos para Arthur Lira e Ciro Nogueira como deputada federal. Ela redesenhou o Fundo de Aval do SEBRAE, transacionando centenas de milhões de reais com foco no empreendedorismo feminino, consolidando a marca da instituição como uma das mais respeitadas do país.

Em cada uma dessas missões, o trabalho foi absorvido pelo sistema. Os resultados foram creditados às lideranças. E quando o momento de colher os frutos do investimento chegou, a candidatura ao governo, a candidatura ao Senado, a simples permanência na chapa, a resposta foi sempre a mesma: o descarte. O trabalho político de Margarete foi expropriado exatamente como Federici descreve a expropriação do trabalho reprodutivo das mulheres na aurora do capitalismo: silenciosamente, sistematicamente, e com a colaboração ativa de uma narrativa que culpa a vítima por não ter sido suficientemente dócil.

E é nesse exato ponto que o artigo do senhor Brandão se torna, involuntariamente, um documento de época. Ao descrever o descarte de Margarete como consequência de suas "escolhas", o texto reproduz, com perfeição sociológica, o que Federici chama de ideologia da domesticação: a crença de que as mulheres que são destruídas pelo sistema foram destruídas porque ousaram sair do lugar que o sistema lhes reservara.

Se o descarte de Margarete Coelho fosse um evento isolado, poderíamos atribuí-lo ao acaso, à contingência, ao jogo natural da política. Mas não é isolado. É um padrão com precisão quase algorítmica:

Em 2018, o PT a descarta da vice-governadoria para acomodar Regina Sousa. Margarete engole a frustração, aceita disputar uma vaga proporcional e se elege deputada federal. Não rompe, não implode a base, não grita traição. Sobrevive.

Em 2022, a derrota não veio pela via do preterimento formal a outro cargo, mas por algo mais insidioso: o fogo amigo. Ao buscar a reeleição para a Câmara dos Deputados, Margarete enfrentou um cenário em que seus próprios correligionários e candidatos da coligação atacaram sistematicamente suas bases eleitorais. As lideranças da então deputada federal Iracema Portella — que naquela eleição concorria à vice-governadoria na chapa de Sílvio Mendes — não foram distribuídas para contemplar a candidatura feminina de reeleição de Margarete, mas sim para beneficiar candidatos homens do partido. Aqui se revela uma dimensão particularmente perversa: a falta de solidariedade de gênero dentro da própria máquina partidária. Uma deputada federal mulher, em posição de influência, não mobilizou suas redes para proteger outra mulher do partido. O resultado foi a não reeleição de Margarete e sua condição de primeira suplente, um rebaixamento que, para qualquer parlamentar, equivale a um exílio funcional.

Em 2026, o PP a descarta mais uma vez. Após meses carregando sozinha o fardo da oposição, rodando o estado, formulando críticas estruturais ao governo Fonteles e coordenando a elaboração de um plano de governo, é substituída pelo mesmo Joel Rodrigues que já havia declarado em entrevistas que a candidatura dela era "prego batido e ponta virada". O anúncio é feito sem sua presença. O plano de governo que ela elaborou é entregue, simbolicamente, ao substituto.

Sueli Carneiro, uma das mais importantes intelectuais brasileiras e fundadora do Geledés — Instituto da Mulher Negra, demonstrou em "Racismo, Sexismo e Desigualdade no Brasil" como os marcadores de gênero e raça operam como dispositivos de exclusão que se retroalimentam. Embora o caso de Margarete Coelho não envolva diretamente a dimensão racial que Carneiro analisa com tanta lucidez, o mecanismo de fundo é análogo: existem corpos que o sistema político admite em posições de servidão funcional, mas expulsa das posições de comando. Corpos que podem trabalhar, mas não podem liderar. Corpos que podem pavimentar, mas não podem habitar. Carneiro nos ensina a enxergar esses padrões não como coincidências biográficas, mas como operações sistêmicas de manutenção de privilégio.

Três descartamentos em oito anos. Sempre no mesmo padrão: a mulher serve, a mulher entrega resultados, a mulher é substituída por um homem. Chamar isso de "azar político" ou de "consequência de escolhas" é, na melhor das hipóteses, ingenuidade analítica. Na pior, é cumplicidade narrativa.

Há uma ausência ensurdecedora no artigo do senhor Brandão: a ausência de qualquer menção ao legado concreto de Margarete Coelho na política nacional. O texto a reduz a uma jogadora de xadrez partidário que "errou o lance". Essa redução é, em si mesma, uma forma de violência simbólica, porque apaga da narrativa exatamente aquilo que torna Margarete Coelho uma figura singular na política brasileira.

Permitam-me, então, preencher esse vazio.

Em 2018, antes mesmo de ser eleita deputada, Margarete Coelho já havia demonstrado que seu nome transcendia as fronteiras do Piauí. Quando o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira, precisou indicar nomes para a vice-presidência na chapa presidencial de Geraldo Alckmin (PSDB), foram apenas dois os nomes chancelados pelo Centrão: a senadora Ana Amélia e a vice-governadora do Piauí, Margarete Coelho. Que fique registrado: uma piauiense de São Raimundo Nonato, do semiárido nordestino, foi finalista para a Vice-Presidência da República. O prefeito de Teresina à época, Firmino Filho (PSDB), declarou que seria "um orgulho para o Piauí" ter uma representante do estado em uma chapa presidencial competitiva. Ana Amélia acabou escolhida, mas a simples presença de Margarete nessa shortlist já deveria bastar para que qualquer análise de sua trajetória reconheça o calibre nacional de seu perfil político.

Na Câmara dos Deputados, sua atuação foi de uma densidade que poucos parlamentares alcançam em várias legislaturas. Margarete Coelho foi coordenadora do Grupo de Trabalho que analisou o chamado Pacote Anticrime, um dos processos legislativos mais complexos, politizados e midiaticamente expostos dos últimos anos. O GT tinha a missão de harmonizar o PL 882/2019, do então ministro da Justiça Sérgio Moro, com os PLs 10.372/2018 e 10.373/2018, oriundos de comissão de juristas coordenada pelo ministro Alexandre de Moraes. A tarefa não era trivial: envolvia conciliar visões profundamente conflitantes de política criminal, filtrar propostas inconstitucionais, resistir à pressão do Executivo, que chegou a lançar uma campanha publicitária de R$ 10 milhões depois suspensa pelo TCU, e produzir um texto que sobrevivesse ao escrutínio do STF.

Margarete conduziu o GT ao longo de 230 dias, com quatro prorrogações de prazo, ouvindo quase 50 especialistas em audiências públicas temáticas. Quando o ministro Moro reclamou publicamente de atraso, ela respondeu com a serenidade institucional que a definia: disse que o grupo não tinha intuito protelatório e que estava "adiantando o debate" para que o Plenário votasse "com segurança". Ela participou diretamente da inclusão do juiz das garantias no texto final, figura que o próprio Congresso inseriu e que o STF posteriormente validou como obrigatória. Sustentou a retirada de temas que considerava inconstitucionais para lei ordinária, como a prisão após segunda instância. E rejeitou pontos simbólicos do pacote de Moro, como a ampliação do excludente de ilicitude e o plea bargain tal como originalmente proposto.

O resultado em plenário foi a prova mais objetiva de sua eficácia como gestora parlamentar: na Câmara, o pacote filtrado pelo GT foi aprovado por 408 votos a favor e apenas 9 contra. O próprio ministro Alexandre de Moraes reconheceu que o texto final incorporava cerca de 90% do conteúdo proposto pela comissão de juristas por ele coordenada. No Senado, o texto aprovado pelos deputados passou sem alterações. A Lei 13.964/2019, resultante desse processo, produziu efeitos normativos e institucionais duradouros: o aumento do tempo máximo de cumprimento de pena para 40 anos, o acordo de não persecução penal, a regulamentação da cadeia de custódia da prova, a proibição de decretação de prisão preventiva de ofício, consolidada pelo STJ na Súmula 676, o confisco alargado de bens e o juiz das garantias. Margarete não coordenou uma vitória "de Moro" nem "de Moraes". Coordenou uma síntese parlamentar que, em vários pontos, domesticou o pacote original do Executivo e produziu legislação tecnicamente defensável.

Ela foi também relatora do Novo Código Eleitoral e do Processo Eleitoral Brasileiro (PLP 112/2021), enfrentando a hercúlea tarefa de compilar, sistematizar e atualizar um arcabouço normativo caótico que remontava a 1965. Sob sua relatoria, foram perenizadas em lei a garantia de 30% de reserva de candidaturas para o sexo minoritário, a blindagem de 30% dos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Especial de Financiamento de Campanha exclusivamente para candidatas, a exigência de pelo menos 30% de mulheres nos órgãos de direção dos partidos, e a punição de cassação total da chapa nos casos de fraude à cota de gênero, atacando frontalmente o fenômeno das "candidatas laranjas".

Em 2022, quando a ministra Ana Arraes se aposentou do Tribunal de Contas da União (TCU), abrindo uma vaga de indicação da Câmara dos Deputados, setores da bancada feminina articularam o nome de Margarete Coelho para sucedê-la. O argumento era irretocável: Ana Arraes era a única mulher no TCU, e sua saída deixaria o tribunal sem nenhuma representação feminina, situação que persiste até hoje, em 2026. O presidente em exercício do PP, deputado Cláudio Cajado, chegou a referir-se a ela publicamente como "minha ministra". A indicação, contudo, não prosperou. A vaga foi ocupada por Jhonatan de Jesus (Republicanos-RR). O TCU, desde então, funciona com nove ministros homens. Em 135 anos de história, apenas duas mulheres ocuparam aquela cadeira.

No SEBRAE Nacional, como Diretora de Administração e Finanças (2023-2026), ela redesenhou o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe), determinando que a instituição atuasse como avalista integral, 100% de garantia, para operações de crédito de empresas lideradas por mulheres. Foram centenas de milhões de reais transacionados, com taxas de inadimplência drasticamente inferiores à média de mercado, destruindo o mito bancário da suposta "inaptidão financeira" da mulher empreendedora. Sob sua gestão, a marca SEBRAE saltou da oitava para a sexta marca mais respeitada do Brasil.

Esse é o currículo que o artigo do senhor Brandão reduziu a uma frase: "advogada brilhante". Brilhante, sim. Mas não apenas brilhante. Transformadora. Legisladora de impacto nacional. Gestora parlamentar de uma das reformas penais mais complexas da história recente. Relatora do Código Eleitoral de uma nação continental. Cotada para a Vice-Presidência da República, para o TCU, para a presidência da Caixa Econômica Federal. Uma política que deveria ser motivo de orgulho para o Piauí inteiro e que o estado insiste em tratar como moeda de troca descartável.

É necessário registrar um fato que o debate político local tem convenientemente ignorado. Ao longo de 2025, quando o governador Rafael Fonteles ostentava 84% de aprovação e a oposição piauiense se encontrava acuada, com seus quadros tradicionais evitando o desgaste de uma derrota previsível, foi Margarete Coelho quem assumiu a linha de frente.

Ela viajou o estado. Formulou críticas estruturais sobre o modelo de endividamento da gestão estadual. Desconstruiu dados de segurança pública, expondo que os índices acumulados de letalidade e feminicídio permaneciam alarmantes apesar de comemorações pontuais do governo. Classificou projetos como a hidrovia do Rio Parnaíba e o hidrogênio verde como ficção administrativa. Denunciou a retaliação do governo contra prefeitos da oposição. Ironizou, com coragem e inteligência, pesquisas que atribuíam ao governador aprovação superior à de "Jesus Cristo".

E enquanto fazia tudo isso, fazia sozinha. As matérias da época registram que suas viagens pelo interior raramente contavam com a companhia de correligionários do Progressistas. Ela não aparecia na peregrinação do senador Ciro Nogueira ao lado de prefeitos e vereadores. Era, nas palavras da jornalista Cinthia Lages, "uma pré-campanha solo".

A pensadora norte-americana bell hooks, em "A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor", propõe uma reflexão radical sobre a masculinidade como sistema de poder. Hooks argumenta que o patriarcado não prejudica apenas as mulheres, mas mutila emocionalmente os homens ao exigir deles uma performance permanente de dureza, competição e desapego afetivo. Os homens que comandam a máquina partidária no Piauí não são vilões de melodrama. São, muitos deles, prisioneiros de uma gramática de poder que lhes ensinou desde a infância que a política é combate, que o adversário mais perigoso é o aliado mais forte, e que mulheres em posições de comando representam uma anomalia a ser corrigida.

Hooks nos convida a imaginar uma outra ética política, uma ética em que a lealdade não é servidão, em que a competência não é ameaça, em que a coragem de uma mulher que enfrenta o poder sozinha é celebrada e não punida. Essa imaginação não é utopia. É necessidade civilizatória.

Judith Butler, em sua teoria da performatividade de gênero, demonstrou que os papéis de gênero não são essências naturais, mas performances repetidas que produzem a ilusão de naturalidade. No campo político, essa performatividade opera com clareza: espera-se que mulheres performem lealdade, gratidão, paciência e subordinação, e que homens performem autoridade, decisão e comando. Quando Margarete Coelho performou autoridade, viajou sozinha, criticou o governador, formulou plano de governo, anunciou desincompatibilização, a reação do sistema foi reconduzi-la, à força, ao papel performativo que lhe era reservado: o de coadjuvante agradecida.

Há um dado que precisa ser dito com todas as letras, porque o debate político piauiense tem o hábito de contorná-lo com constrangimento: o estado do Piauí, neste exato momento, não possui nenhuma mulher representando-o na Câmara dos Deputados. Nenhuma. Zero. Em duzentos anos de história do Congresso Nacional, apenas seis mulheres foram eleitas deputadas federais pelo Piauí: Myriam Portela, Iracema Portella, Margarete Coelho, Marina Santos, Rejane Dias e Francisca Trindade. A última deputada federal em exercício, Rejane Dias (PT), renunciou ao mandato para assumir uma vaga de conselheira no Tribunal de Contas do Estado. Desde então, a bancada piauiense na Câmara é composta integralmente por homens.

Na Assembleia Legislativa, o cenário não é menos desolador: das trinta cadeiras, apenas quatro são ocupadas por mulheres. Dos 224 municípios piauienses, somente 29 são administrados por prefeitas, um número estagnado há cerca de oito anos, representando 12,5% do total.

Esses números não são acidentes estatísticos. São o produto de um sistema que, como a professora Bárbara Johas (UFPI) diagnostica, permite que os partidos burlem sistematicamente os investimentos em candidaturas femininas, fazendo com que mulheres concorram em condições financeiras radicalmente desiguais. São o produto de uma cultura política que, como a secretária de Mulheres do Piauí, Zenaide Lustosa, reconhece, submete as mulheres que buscam espaços eletivos à violência política de gênero, dentro e fora dos próprios partidos.

É nesse deserto de representação feminina que o descarte de Margarete Coelho ganha sua dimensão mais trágica. Não estamos falando de uma entre dezenas de lideranças femininas disponíveis. Estamos falando de uma das raríssimas mulheres que conseguiu furar o bloqueio do patriarcado político piauiense, que alcançou projeção nacional, que legislou em favor das mulheres com resultados concretos e que, mesmo assim, foi repetidamente devolvida ao ponto de partida pela máquina que ela ajudou a construir.

É preciso dizer com clareza: o Novo Código Eleitoral que tramita no Senado prevê a substituição da cota de candidaturas por uma reserva de 20% das cadeiras legislativas para mulheres. Se aprovada, essa medida obrigaria o Piauí a eleger pelo menos duas deputadas federais a cada eleição. É uma ironia quase insuportável que a própria Margarete Coelho tenha sido uma das maiores defensoras de mecanismos como esse, e que agora, descartada pelo sistema que ela tentou reformar, o estado do qual ela se orgulha não tenha sequer uma mulher em Brasília para continuar a luta.

Há um termo alemão — Schadenfreude — que designa o prazer sentido diante da desgraça alheia. É uma emoção que todos experimentamos em alguma medida, mas que a ética nos obriga a reconhecer e conter, especialmente quando exercemos a função pública de informar e opinar.

O artigo do senhor Brandão, lido com generosidade, pode ser interpretado como uma análise pragmática da estratégia política de Margarete. Lido com rigor sociológico, porém, há nele um subtexto inconfundível de satisfação narrativa com a "queda" de alguém que "errou". A construção retórica, "virou as costas", "trocou o certo pelo duvidoso", "seguiu cegamente", não é a de quem analisa com distanciamento, mas a de quem narra uma parábola moral. E toda parábola moral precisa de um pecador.

O problema é que essa parábola, quando aplicada a mulheres na política, reproduz uma das estruturas mais antigas de controle patriarcal: a da mulher que é punida por sua ousadia. Rita Segato, em "A Guerra contra as Mulheres", identifica essa estrutura como o mandato de masculinidade, a exigência, inscrita na gramática profunda da cultura, de que os homens demonstrem controle sobre os corpos e os destinos das mulheres como condição de pertencimento ao grupo dominante. A mulher que escapa ao controle, que sai da aliança, que ousa ter projeto próprio, que recusa o papel de satélite, precisa ser disciplinada. E a narrativa de "ela que escolheu" é o instrumento preferencial dessa disciplina simbólica.

Quanto ao moralismo farisaico: é a postura daquele que exige dos outros uma retidão moral que ele próprio não pratica e que não exige de seus aliados. Cobrar lealdade de Margarete ao PT sem cobrar lealdade do PT a Margarete é farisaísmo em estado puro. Cobrar fidelidade de Margarete ao PP sem cobrar reciprocidade do PP a Margarete é a mesma moeda. O fariseu, como nos ensina a tradição, não peca por ser rigoroso demais. Peca por aplicar o rigor apenas aos outros, jamais a si mesmo ou aos seus.

Encerro este texto com uma confissão que não cabe em análises frias: o Piauí deveria se orgulhar de Margarete Coelho. Deveria se orgulhar de ter produzido uma mulher nascida no semiárido de São Raimundo Nonato que se tornou doutora em Políticas Públicas, a primeira vice-governadora da história do estado, finalista para a Vice-Presidência da República, coordenadora do Grupo de Trabalho que produziu uma das maiores reformas penais da história recente do Brasil, relatora do Código Eleitoral da nação, gestora de bilhões no SEBRAE com resultados superlativos, cotada para o Tribunal de Contas da União e para a presidência da Caixa Econômica Federal.

Em vez disso, o que o Piauí oferece a Margarete Coelho é o ciclo interminável do descarte. Servir, entregar, ser substituída. Servir novamente, entregar novamente, ser substituída novamente. E, quando ousou reagir, quando buscou sobreviver em outro campo político, a resposta não é admiração pela resiliência, é a acusação de traição.

Não existe, na política piauiense contemporânea, nenhum quadro masculino que tenha sido submetido ao mesmo tratamento. NENHUM. Os homens que são preteridos são realocados, compensados, absorvidos. As mulheres que são preteridas são apagadas e, quando alguém as menciona, é para explicar por que mereceram o apagamento.

Simone de Beauvoir escreveu que "o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos". Eu acrescentaria, no contexto deste debate: o opressor não seria tão forte se não tivesse cronistas que narram a opressão como consequência natural das escolhas da oprimida.

Margarete Coelho não precisa de piedade. Precisa de justiça narrativa. Precisa que alguém, neste estado, tenha a coragem de dizer o óbvio: o problema não é ela. O problema nunca foi ela. O problema é um sistema político que trata mulheres como infraestrutura descartável do poder e uma opinião publicada que, quando confrontada com essa verdade, prefere culpar a infraestrutura por ter desabado.

Escrevo este artigo como homem. E sei que, ao fazê-lo, corro o risco da contradição: um homem falando por uma mulher, quando o problema é justamente o silenciamento das mulheres. Aceito esse risco porque bell hooks nos ensina que a transformação do patriarcado não é tarefa exclusiva das mulheres. É tarefa de todos que reconhecem que o sistema atual mutila a todos, a elas pela opressão, a nós pela cumplicidade.

Não escrevo para "dar voz" a Margarete Coelho. Ela tem voz, e a usou com coragem quando poucos tinham. Escrevo para que nós, homens que nos dizemos progressistas, que nos dizemos de esquerda, que nos dizemos sensíveis às pautas de gênero, paremos de aplaudir mulheres em discursos de palanque e comecemos a defendê-las quando são trituradas nos bastidores.

Escrevo porque, se o silêncio dos homens diante do descarte de uma mulher qualificada for interpretado como normalidade, então não merecemos nenhuma das bandeiras que carregamos.

Margarete Coelho foi, é e continuará sendo um dos maiores quadros políticos que o Piauí já produziu. Se o estado não soube honrá-la, que ao menos a história corrija o que a política desfigurou.

(*) Hemerson Daniel é advogado, especialista em violência de gênero.

Redação

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