O Sistema Único de Saúde (SUS) vai substituir gradualmente o exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV no rastreamento do câncer do colo do útero. A mudança, já em curso no país, marca uma atualização importante na política pública de prevenção e deve tornar o diagnóstico mais precoce, preciso e, para muitas mulheres, menos desconfortável. A nova estratégia, considerada mais moderna e eficaz, é o foco da versão atualizada do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, lançada nesta quinta-feira (8) pela Fundação do Câncer, dentro das ações do Janeiro Verde, mês de conscientização sobre a doença.
A principal novidade do guia é orientar profissionais de saúde sobre essa transição no rastreamento, que responde a críticas frequentes das mulheres ao método atual. O Papanicolau, usado há décadas, depende da análise manual de células e pode falhar na identificação precoce do problema. Já o teste molecular de DNA-HPV detecta diretamente a presença do vírus responsável pela quase totalidade dos casos de câncer do colo do útero, antes mesmo do surgimento de alterações celulares.
O Papanicolau depende de análise manual e pode falhar na identificação precoce do câncer
Segundo a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa, tanto a vacinação quanto o rastreamento passaram por avanços significativos nos últimos anos, especialmente em 2025. “Houve uma ampliação do público-alvo da vacinação contra o HPV e a incorporação, pelo SUS, dos testes moleculares para detectar os tipos do vírus com maior risco de causar câncer”, explicou.
A implementação do novo exame começou em setembro do ano passado, de forma gradual, em municípios de 12 estados. Um núcleo específico foi criado no Ministério da Saúde para coordenar esse processo, que está em diferentes estágios conforme a região. A expectativa é que outros 12 estados passem a receber apoio para iniciar a adoção do teste. Onde o método molecular ainda não estiver disponível, o Papanicolau continua sendo utilizado.
O guia já incorpora as novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero, aprovadas pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Para o diretor executivo da Fundação do Câncer, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, a mudança representa um avanço decisivo. “Enquanto o Papanicolau identifica alterações quando elas já existem, o teste de DNA-HPV amplia a capacidade de detecção precoce e torna a prevenção muito mais efetiva”, afirmou.
O público-alvo do rastreamento permanece o mesmo: mulheres entre 25 e 64 anos. A diferença está na periodicidade. Com o Papanicolau, o exame precisa ser repetido a cada três anos após dois resultados negativos consecutivos. Já o teste molecular, mais sensível, permite ampliar o intervalo para até cinco anos quando o resultado é negativo, o que reduz desconfortos, repetições desnecessárias e a sobrecarga do sistema de saúde.
Quando o teste identifica os tipos de HPV mais associados ao câncer, como o 16 e o 18, o encaminhamento para exames complementares é imediato. Nos casos considerados de risco intermediário, o acompanhamento é mais próximo, garantindo segurança sem excessos de procedimentos.
Novo teste identifica o vírus ligado à maioria dos casos de câncer do colo do útero antes das alterações celulares
A mudança no rastreamento faz parte da estratégia assumida pelo Brasil ao aderir ao plano global da Organização Mundial da Saúde para eliminar o câncer do colo do útero como problema de saúde pública até 2030. As metas incluem ampliar a vacinação contra o HPV, aumentar a cobertura do rastreamento com testes mais eficazes e garantir tratamento rápido para quem for diagnosticada.
Para Flávia Corrêa, a transição para o teste molecular aproxima o Brasil de países como a Austrália, referência mundial na área. “É um exame automatizado, com alto grau de segurança. Se o resultado for negativo, há quase certeza de que a mulher não desenvolverá lesões ou câncer nos anos seguintes”, destacou.
Apesar do avanço tecnológico, especialistas reforçam que a mudança só será eficaz se toda a rede de atenção estiver estruturada. “Não basta trocar o exame. É preciso garantir vacinação, rastreamento e tratamento oportuno. Se um desses elos falha, a prevenção não se completa”, alertou a médica.
Com a nova versão do guia, a expectativa é que profissionais de saúde e gestores tenham mais clareza sobre esse processo e que, na prática, as mulheres sejam beneficiadas com exames mais precisos, menos desconforto e maior proteção contra um câncer que, quando prevenido corretamente, pode ser evitado.
Fonte: Agência Brasil
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