A ideia de que investigações podem ser manipuladas por interesses ocultos foi um dos pontos mais diretos abordados pelo perito médico legista Antonio Nunes, da Polícia Científica do Piauí, durante entrevista ao podcast Papo de Jaleco, conduzido pela jornalista Mau Barreto. Ao longo da entrevista, ele destacou que a perícia não atua para confirmar versões, mas para buscar a chamada “verdade real”, ressaltando que o trabalho técnico pode, inclusive, seguir um caminho diferente do adotado pela investigação policial.
Ao comentar um caso de grande repercussão no Piauí, ele ironizou a possibilidade de interferência externa no trabalho pericial. Segundo ele, para que isso ocorresse, seria necessário envolver um número elevado de profissionais. “Teria que ter um chefão poderoso que mandasse em todos os peritos, médicos, engenheiros, físicos, gente da informática e ainda todos os delegados e policiais que trabalharam no caso. Isso é possível?”, questionou, ao rebater a hipótese de um suposto complô. “A gente não tem lado. Nosso lado é a verdade”, ressaltou.
Médico legista Antonio Nunes, da Polícia Científica do Piauí
Esse ponto ficou evidente em um caso citado por ele, no qual promotores chegaram a afirmar publicamente que se tratava de homicídio, enquanto a perícia ainda não tinha elementos para essa conclusão. “Eu disse que não tinha nada que provasse homicídio. Precisávamos fazer os exames primeiro”, relatou. Posteriormente, os resultados indicaram outro entendimento, mostrando a importância de evitar conclusões antecipadas.
Outro aspecto que chama atenção é a forma como o especialista desmonta ideias comuns do público. Ele afirma que a preservação perfeita de cenas de crime é rara. “Em 99% dos casos há algum tipo de alteração”, disse, citando situações em que curiosos mexem no local, objetos são deslocados ou até o corpo é tocado antes da chegada da perícia. Apesar disso, ele garante que os profissionais são preparados para lidar com essas interferências. “A gente tem formação e equipamentos para superar essas alterações”, afirmou.
O perito também ressaltou o peso da prova técnica dentro de uma investigação. Para ele, exames periciais têm um nível de confiabilidade que não pode ser comparado a depoimentos. “Testemunho pode mudar. A prova técnica não. Um DNA, por exemplo, é uma prova que não muda”, disse, ao classificar esse tipo de evidência como essencial para a Justiça.
Além de contribuir para condenações, a perícia também pode evitar erros (Foto: Gustavo Fring)
Além de contribuir para condenações, a perícia também pode evitar erros. Antonio Nunes relatou o caso de um homem que passou seis meses preso acusado de estupro, mas foi inocentado após exames. “A gente comprovou que não foi ele. Eram outras pessoas e a relação tinha sido consensual”, contou.
Outro ponto abordado foi a pressão enfrentada pelos profissionais. Segundo ele, um dos maiores desafios da carreira é lidar com críticas públicas sem poder responder, devido ao sigilo. “Você é xingado, chamado de incompetente, de desonesto, e não pode mostrar tudo por causa da ética”, explicou.
Mesmo diante dessas dificuldades, o perito defendeu a qualidade do trabalho realizado no Piauí. Ele afirmou que a perícia brasileira tem nível técnico comparável ao de países desenvolvidos. “Já visitei a perícia da França e é semelhante à nossa. A diferença é que lá há menos demanda”, disse.
Antonio Nunes também destacou avanços na estrutura do Piauí, especialmente na área de laboratórios. Segundo ele, o estado possui setores que estão entre os mais bem equipados do país, com capacidade para realizar exames complexos tanto em vítimas vivas quanto em casos de morte.
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