Olhe Direito!

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Salvar os rios é salvar o futuro

Não se está pedindo aqui para pensarmos em um outro lugar, sociedade ou civilização que não sejam o nosso próprio espaço, nós mesmo enquanto sociedade

Alvaro o Mota

Sábado - 29/11/2025 às 14:31



Foto: Internet Rio Parnaíba
Rio Parnaíba

Desde que sou criança – e isso já faz mais de quatro décadas – tenho ouvido falar sobre o potencial de riqueza que oferecia o Vale do Gurgueia, um dos mais úmidos do território piauiense, com suas grandes reservas hídricas subterrâneas. Mas o Gurgueia, ao contrário de outros rios que produziram riqueza, não aconteceu como um gerador de ativos econômicos de grande vulto. Ao contrário, hoje agoniza.

Maior afluente do rio Parnaíba a correr totalmente em território piauiense, com 532 km de extensão, o Gurgueia é alimentado pelas águas de seus maiores afluentes ao longo desse percurso, os rios Paraim, Curimatá, Fundo, Corrente, Canhoto e Esfolado. Banha 33 municípios do Piauí, desde São Gonçalo do Gurgueia até a foz, em Jerumenha. Nesse percurso poderia e deveria produzir riqueza, mas tem sido alvo do pouco-caso de nós outros.

Tomo o Gurgueia por exemplo de descuido nosso de todo dia e de tempo todo com os nossos rios – um tesouro que se mal cuidado acaba e põe fim às nossas chances de sobrevivência ou de uma vida com o mínimo de qualidade. Temos pela frente o desafio de cuidar dos nossos rios – seja como sociedade, seja como Estado.

O Piauí tem, além do Gurguéia, outros importantes veios d’água como afluentes e subafluentes do rio Parnaíba, em cuja bacia hidrográfica estão 222 dos 223 municípios do Piauí – só ficando de fora Cajueiro da Praia.

A bacia hidrográfica do Parnaíba é uma das mais importantes do Brasil e para o Piauí é vital, porque tanto ao longo de seu principal rio quanto de afluentes e subafluentes se concentra a maior parte da população do Estado.

Assim, temos, além do Gurgueia, os rios Uruçuí-Preto (300 km de extensão), Canindé (350 km de extensão), Longá (320 km), Poti (538 km), que somam mais de 1,8 mil km de extensão. Se foram acrescidos a estes rios alguns de seus afluentes, como o Uruçuí-Vermelho (afluente do rio Uruçuí-Preto), Canindé (Piauí, Itaueira e Itaim), Poti (Berlengas, Sambito e São Nicolau), Longá (Matos, Piracuruca, Jenipapo e Surubim), a extensão de terras banhadas é ainda maior.

Imaginemos um conjunto hidrográfico vasto como esse num espaço territorial em que todos os atores sociais e políticos estejam conscientes de que este é um dos seus maiores ativos naturais, um tesouro a ser mantido para as gerações atuais e para o que virão depois de nós...

Não se está pedindo aqui para pensarmos em um outro lugar, sociedade ou civilização que não sejam o nosso próprio espaço, nós mesmo enquanto sociedade e cultura. A proposta é que sejamos nós mesmos os responsáveis por criar um poderoso mecanismo de consciência socioambiental para tornar salvar nossos rios, porque isso é que salvará o nosso futuro.

Imaginemos ainda todo o espaço hidrográfico ocupado pela bacia do rio Parnaíba e seus afluentes e subafluentes de território do Piauí a salvo, com milhares de quilômetros de matas ciliares preservados; com nascentes conservadas e protegidas; com as lagoas ao longo de toda a extensa rede hidrográfica mantidas limpas e servindo como berçários naturais de peixes e outros animais.

Tudo isso sem embargo de atividades econômicas, que se poderiam favorecer desse cenário de consciência preservacionista que tem na natureza uma permanente reserva de riqueza para usufruto de todos – o que evidentemente pode ser encarado como sonho, mas precisa ser visto o quanto antes como projeto de futuro comum.

Álvaro Mota

Álvaro Mota

É advogado, procurador do Estado e mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Álvaro também é presidente do Instituto dos Advogados Piauienses.

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