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OPINIÃO DO LEITOR

Gentileza não é escudo

Jovem foi esfaqueada após dizer “não”, e episódio reforça discussão sobre cultura da culpabilização da vítima

Yasmin Lyra Sousa

Sexta - 13/02/2026 às 11:23



Foto: Imagem feita por IA Não sejamos nunca gentis com nossos agressores. Eles não merecem nossa gentileza. Merecem limites, responsabilização e afastamento.
Não sejamos nunca gentis com nossos agressores. Eles não merecem nossa gentileza. Merecem limites, responsabilização e afastamento.

Alana Anísio Rocha foi esfaqueada quinze vezes no rosto por um homem que ela não conhecia  porque disse não. Essa frase deveria nos paralisar. Não pelo choque isolado, mas porque ela condensa uma regra silenciosa que estrutura a vida de meninas e mulheres: somos ensinadas a suavizar, a sorrir, a “ser gentis” para sobreviver. Como se a delicadeza fosse um colete à prova de facas. Não é. Gentileza não nos protege da agressão masculina, porque a violência não é uma ocorrência ao nosso comportamento: é uma decisão autônoma de cada agressor. Não há tom certo, recusa perfeita, sorriso adequado que transforma um homem violento em seguro.

No caso de Luiz Felipe, agressor de Alana, o que a sociedade insiste em romantizar nunca foi afeto. Sempre foi coerção, perseguição, perversão e violência. Presentes não são gestos românticos quando ignoram o consentimento; são instrumentos de pressão. Descobrir o endereço de uma mulher que se aproximou não é “prova de amor”; é vigiado, é ameaçado, é exercício de poder. Quando, mesmo após o “não”, os homens encontram meios de nos localizar e nos perseguir, a pergunta óbvia não é “o que ela poderia ter feito diferente?”, mas “quando e onde estaremos seguros?”. A pergunta correta desloca a culpa do corpo feminino para a estrutura que normaliza a invasão.

Este texto é um apelo às mães. Um apelo urgente, doloroso e necessário: não eduquem suas filhas para serem gentis com quem as agride. Não tão ensinem a administrar o ego masculino como se fosse responsabilidade deles manter os homens calmos. Não transmitam a ideia de que a sobrevivência depende de sorrisos, de desculpas, de cuidado com sentimentos alheios. Ensinem, sim, a consideração de riscos, a estabelecer limites, a pedir ajuda, a registrar ocorrências, a criar redes, a confiar na própria intuição  e, sobretudo, a entender que a culpa nunca é da vítima.

A filósofa Simone de Beauvoir escreveu que “não se nasce mulher: torna-se”. Esse tornar-se inclui aprender a performar docilidade como estratégia de sobrevivência em um mundo que nos pune por existir fora do controle masculino. Judith Butler nos lembra que gênero é também uma reprodução de expectativas sociais: a mulher “agradável”, a “boa menina”, a “educada”. Mas quando a docilidade é usada como condição para estar viva, ela deixa de ser virtude e se torna armadilha. Audre Lorde afirmou que “o silêncio não nos protegerá”. A exigência de gentileza muitas vezes é a exigência do silêncio do silêncio que evita conflitos, que não “provoca”, que não “envergonha”. Esse silêncio custa caro. Custa sangue.

Bell Hooks analisa como o amor, nas sociedades patriarcais, é frequentemente confundido com posse e controle. Quando um homem insiste após uma recusa, quando transforma presentes em cobrança, quando vigia, quando persegue, isso não é amor; é a lógica da propriedade aplicada aos corpos femininos. Rita Segato descreveu a violência contra as mulheres como pedagogia da crueldade: ela ensina, pelo terror, quem manda e quem deve temer. A fachada não é apenas um ato individual; é uma mensagem social. Uma mensagem que diz: “o não feminino tem custo”. Nossa resposta precisa ser coletiva, clara e sem ambiguidade: o não é soberano, e qualquer violação é crime.

Às mães: sei que muitas de vocês ensinaram a gentileza por amor, por medo, por memória. Vocês também aprenderam que a sobrevivência passa por “não irritar”, por “não confrontar”, por “não provocar”. Vocês carregam histórias de épocas em que denunciar era impensável, em que a polícia não atendia, em que a palavra da mulher não valia. Mas o mundo não muda se continuarmos passando adiante o mesmo manual de sobrevivência que falhou conosco. Ensinar gentileza como escudo é ensinar a aceitar o risco como destino. Precisamos ensinar direitos como armadura.

Djamila Ribeiro fala da importância do lugar de fala para desmontar a naturalização da violência. Quando dizemos que a mulher “deveria ter sido mais educada”, estamos reafirmando o lugar do agressor como centro: o humor dele, o desejo dele, a narrativa dele. Angela Davis nos lembra que a violência de gênero está imbricada com racismo, classe e encarceramento seletivo, e que soluções superficiais não alcançam a raiz do problema. Silvia Federici analisa como o controle dos corpos das mulheres sempre fez parte do projeto de poder. Nada disso é abstrato quando uma jovem é esfaqueada por dizer não. A teoria encontra o sangue. E o sangue nos convoca.

Não sejamos nunca gentis com nossos agressores. Eles não merecem nossa gentileza. Gentileza é para quem respeita limites, para quem aceita o não, para quem convive sem ameaçar. Com agressores, precisamos de limites firmes, registros, distância, proteção, testemunhas, redes. Precisamos de políticas públicas que levem a sério o stalking, a perseguição, a violência psicológica. Precisamos que a Lei Maria da Penha seja aplicada com rigor e que medidas protetivas sejam céleres. Precisamos de educação de meninos para o consentimento, para a frustração, para o não. precisamos de responsabilidade real. Precisamos parar de perguntar às mulheres como sobreviver e começar a exigir dos homens que não agridam.

Às mães, novamente: ensinem suas filhas a reconhecer sinais de perigo sem culpabilizá-las por não preverem o imprevisível. Ensinem que a recusa não é grosseria, é direito. Ensinem que presentes não compram afeto. Ensinem que insistência não é romantismo. Ensinem que perseguição é crime. Ensinem a documentar, a compartilhar localização com pessoas de confiança, a criar palavras-código, a procurar apoio. Ensinem que pedir ajuda não é fraco. Ensinem, sobretudo, que a vida delas vale mais do que a conveniência de qualquer homem.

E ensina seus filhos  porque também é papel das mães, em um sistema que nos delega a socialização  que o não é não. Que ninguém deve nada a eles. Que desejo não autorizar invasão. Que frustração não vira violência. Que amor não é posse. Que masculinidade não é controle. Que respeito é base, não prêmio. Mas não jogamos essa tarefa apenas nas mães: pais, escolas, roupas, clubes, mídias, justiça todos precisam assumir responsabilidade.

Quando uma mãe aconselha a filha a ser gentil com um homem que a persegue, ela não está errada por maldade. Ela está repetindo uma tradição de sobrevivência que falhou. Este texto não é um julgamento; é um convite à ruptura. Um convite para trocar o manual. Um convite a dizer: a partir de agora, nossa pedagogia será da proteção, não da apaziguação. A da autonomia, não a da acomodação. A da denúncia, não a do silêncio. A da solidariedade, não a do “cada uma por si”  embora saibamos que, muitas vezes, é apenas entre nós que nos encontramos abrigados.

Audre Lorde também disse que “cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política”. Dizer não, registrar ocorrência, cortar contato, não sorrir, não agradecer presente indesejado, bloquear, exportar, buscar rede  tudo isso é autopreservação. Em um sistema que espera nossa docilidade, autopreservação é rebeldia. Rebeldia que salva vidas.

Que o caso de Alana não seja mais um nome engolido pela rotina de horrores. Que seja um marco para revisarmos o que ensinamos dentro de casa. Que mães podem dizer às filhas: você não precisa ser gentil para estar seguro; você precisa ser livre para dizer não. O que pode dizer: sua vida vale mais do que qualquer expectativa de delicadeza. O que pode dizer: estamos com você  na denúncia, no hospital, na delegacia, na terapia, no recomeço. O que pode dizer: não romantizaremos a violência. Não pediremos que você administre a agressividade alheia. Não aceitamos a pedagogia do medo como herança.

Não sejamos nunca gentis com nossos agressores. Eles não merecem nossa gentileza. Merecem limites, responsabilização e afastamento. Às mães, este é o apelo: mudem a lição. Salvem o futuro ensinando que o não é soberano, que o corpo é território inviolável, que a dignidade não se negocia. E que, juntas, podemos construir uma cultura em que dizer não seja uma sentença de morte, mas o exercício simples e inquestionável de um direito humano.

Yasmin Lyra Sousa é estudante de ciências sociais na UESPI e estagiária na Secretaria Estadual das Mulheres | Foto: arquivo pessoal

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