A professora doutora Margareth Torres de Alencar Costa, da Universidade Estadual do Piauí (UESPI), foi reconhecida internacionalmente em 2026 ao ser nomeada membro honorário do EL COLEGIO INTERNACIONAL DE ENSEÑANZA DE ESPAÑOL, LENGUA Y LITERATURA DE HIDALGO, A.C, com sede no México. A honraria destaca a trajetória da docente, considerada uma das pioneiras na área no estado.
A notícia, segundo ela, chegou de forma inesperada. Antes mesmo do comunicado oficial, colegas já haviam compartilhado a publicação feita pela instituição estrangeira no Facebook.
Eu não esperava essa homenagem, mas fiquei muito feliz por esse reconhecimento vindo de um país estrangeiro.
Com mais de duas décadas dedicadas ao ensino, à pesquisa e à extensão, Margareth Torres teve papel central na consolidação do espanhol como área acadêmica no Piauí. A relação com o idioma começou ainda cedo, impulsionada pela facilidade em aprender línguas.
Já como professora da UESPI, tornou-se a primeira docente do curso de Letras Espanhol da instituição, participando diretamente da sua implantação.
Desde então, sua atuação foi marcada pela criação de projetos e iniciativas voltadas à formação de professores e à ampliação do acesso ao ensino de línguas. Entre os destaques estão a fundação do Centro de Línguas Padre Raimundo José e a criação da Associação de Professores de Espanhol do Estado do Piauí (APEEPI).
Além disso, colaborou na implantação do curso de Letras Espanhol na modalidade a distância e no desenvolvimento de materiais didáticos para estudantes.
Venho, desde 1999, trabalhando com ensino, pesquisa e extensão nessa área, buscando contribuir com a formação de alunos e professores.
Formação fora do estado e desafios
Ao longo da trajetória, a professora enfrentou desafios estruturais, especialmente relacionados à ausência, à época, de cursos de pós-graduação no Piauí.
Para avançar na carreira acadêmica, precisou buscar formação em outros estados e até fora do país, incluindo um pós-doutorado realizado em Buenos Aires, na Argentina.
Como não tínhamos cursos de graduação e pós-graduação na área, precisei sair do estado para me qualificar e depois voltar para contribuir com a melhoria do ensino. (...) Quando você é a primeira a caminhar com projetos você precisa muito de ajuda e apoio, e isso eu tive de nossa instituição, dos alunos e professores do Curso de Letras Espanhol que sempre lutaram comigo para fazermos o trabalho de 'formiguinha', só para citar uma metáfora.
Ela ressalta que o percurso não foi solitário e destaca o apoio de colegas, professores e da própria universidade. Entre eles, cita o professor argentino Omar Mário Albornoz, que atuou junto na consolidação do curso de espanhol na UESPI.
A docente avalia que o ensino de espanhol no Piauí evoluiu significativamente ao longo dos anos. O que começou com poucos profissionais hoje conta com um corpo docente formado, em sua maioria, por oito mestres e doutores egressos da própria universidade.
Os projetos desenvolvidos também contribuíram para a interiorização do ensino de línguas, alcançando dezenas de municípios piauienses.
Hoje, temos cursos implantados em cerca de 50 municípios, mudando a vida de muitas pessoas por meio da educação.
Margareth avalia que o reconhecimento internacional não se limita a uma conquista individual, mas reflete um esforço coletivo, destacando ainda que isso evidencia que a UESPI está no caminho certo ao oferecer um ensino público de qualidade e acessível à população.

A comunidade foi o ponto decisivo
A professora destaca que sua trajetória foi marcada por uma rede de apoios fundamentais, tanto no campo pessoal quanto acadêmico. Segundo ela, a fé sempre esteve presente em sua caminhada.
Em todos os momentos da minha vida, Deus sempre esteve ao meu lado segurando minha mão.
Além disso, Margareth ressalta as contribuições de pessoas e instituições ao longo de sua carreira. Ela cita outro professor argentino, Alfredo Adolfo Cordiviola, além do Omar, como importantes parceiros acadêmicos. No âmbito pessoal, relembra o apoio do marido, já falecido, que cuidava dos filhos durante suas ausências para formação fora do estado.
A docente também menciona a colaboração da Embaixada da Espanha e da Consejería de Educación, que contribuíram com a realização de cursos de capacitação para professores da rede pública por meio de parcerias com a APEEPI e a Seduc. Além disso, destaca o apoio do Instituto Cervantes, que possibilitou a implantação de um centro de exames no Piauí, e, mais recentemente, as parcerias com o Colégio do México e o Instituto Nelkualli, com participação da pesquisadora Elizabeth Islas León em eventos internacionais.
Margareth também enfatiza o suporte dos programas de pós-graduação da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e Universidade Estadual do Piauí (UESPI), que fortalecem as ações voltadas ao ensino e à pesquisa da língua espanhola.
Parcerias internacionais e novos caminhos
A nomeação também abre portas para o fortalecimento de parcerias internacionais, especialmente com instituições da América Latina.
Segundo a professora, mesmo diante das limitações financeiras, as ações devem ocorrer por meio de atividades remotas, envolvendo intercâmbio acadêmico, participação em eventos, publicações científicas e colaboração em bancas de pós-graduação.
Ela explica que a parceria será efetivada pela Diretoria de Relações Internacionais da UESPI em conjunto com o Programa de Pós-Graduação, com foco no desenvolvimento de ações de reciprocidade em ambiente virtual. A iniciativa deve contribuir para o crescimento acadêmico da universidade e do programa, por meio da atuação da Comissão de Internacionalização do PPGL, da qual faz parte ao lado da professora Algemira de Macedo Mendes, líder do grupo.
Ela atualmente desenvolve pesquisas voltadas às literaturas transculturais e às relações literárias latino-americanas, além de projetos que buscam aproximar a universidade da sociedade.
Produção acadêmica e inspiração feminina
Entre suas produções acadêmicas, destaca-se um livro dedicado à obra de Sor Juana Inés de la Cruz, escritora mexicana do século XVII e uma das principais vozes do barroco hispano-americano. Reconhecida por sua inteligência e ousadia intelectual, Sor Juana tornou-se um símbolo da resistência feminina em um período marcado por fortes restrições à atuação das mulheres no campo do conhecimento.
A professora ressalta a relevância da autora como referência acadêmica e inspiração.
Meu estudo busca resgatar a voz dessa mulher à frente de seu tempo. Ela é um ícone da resistência intelectual feminina e da literatura hispânica.
Margareth destaca ainda que sua obra nasce de uma profunda admiração pela luta histórica das mulheres por espaço na produção intelectual. Nesse contexto, ela reforça que Sor Juana, além de escritora, foi filósofa e religiosa, tendo desafiado as normas sociais de sua época ao defender o direito feminino ao conhecimento e à educação.
Para a docente, há também uma conexão simbólica entre a trajetória da autora mexicana e o reconhecimento internacional que recebe. Em sua avaliação, estudar Sor Juana é compreender que o saber ultrapassa limites de gênero e de território, evidenciando que a produção intelectual feminina sempre existiu, mesmo diante de barreiras sociais e históricas.
Livro, Sor Juana Inés de la Cruz de autoria da Professora Doutora Margareth Torres de Alencar Costa
Educação como transformação social
Para Torres, a universidade pública exerce um papel fundamental na sociedade.
A universidade pública é o motor da ascensão social. Ela não forma apenas técnicos, mas cidadãos críticos que transformarão a realidade do nosso estado.
Ela também chama atenção para os desafios do ensino de línguas estrangeiras no Brasil, especialmente a necessidade de manutenção de políticas públicas que garantam a valorização do espanhol.
O maior desafio hoje é assegurar a presença do espanhol na grade curricular, reconhecendo nossa identidade latino-americana.
A professora defende que é necessário ampliar os investimentos em mobilidade acadêmica e no suporte à pesquisa, a fim de garantir que doutores e mestres possam produzir ciência com mais tranquilidade.
Conselho, legado e próximos passos na carreira
Ao falar sobre o futuro e a própria trajetória, a doutora deixa uma mensagem direta para estudantes que desejam seguir carreira acadêmica. Segundo ela, é preciso ter persistência e clareza de propósito ao longo do caminho.
Tenham resiliência e propósito. A carreira acadêmica é um caminho de ‘formiguinha’, mas os frutos são coletivos e permanentes.
Mesmo com uma trajetória consolidada, Margareth Torres afirma que ainda possui objetivos a alcançar, entre eles o desejo de continuar produzindo conhecimento por meio da escrita, com a intenção de contribuir para o crescimento das pessoas.
Ao refletir sobre o legado que pretende deixar, a professora enfatiza o impacto humano da educação, destacando que, mais do que ensinar a língua, busca ser lembrada pela forma como contribuiu para a vida de seus alunos.
Quero ser lembrada como alguém que não apenas ensinou uma língua, mas que abriu portas e acreditou no potencial de cada aluno, sempre guiada pela ética e pelo serviço ao próximo.
Professora Doutora Margareth Torres de Alencar Costa junto com os docentes do curso de Espanhol da UESPI. foto: Arquivo Pessoal
Fé e espiritualidade
Para além da sala de aula e da produção acadêmica, Margareth revela uma rotina marcada por momentos de simplicidade, afeto e espiritualidade. No tempo livre, ela afirma que gosta de estar com a família, ler poesias, assistir a filmes, ouvir música e também se dedicar à escrita de materiais didáticos voltados aos alunos. A espiritualidade ocupa um espaço central em sua vida, sendo, segundo ela, uma fonte constante de renovação.
A Bíblia é a principal referência pessoal e intelectual da professora. Ela destaca que a leitura da obra é contínua e sempre desafiadora.
Quanto mais leio, mais aprendo, mas sinto que preciso estudar muito para conhecer e fazer a vontade de Deus.
No cotidiano, Margareth Torres afirma que sua motivação diária vem do contato direto com os estudantes, destacando que o maior retorno de sua carreira está na transformação proporcionada pela educação. Para a professora, é esse processo — especialmente ao perceber o entusiasmo de alunos que descobrem o potencial da educação para ampliar horizontes — que a impulsiona a seguir na docência.
Ao sintetizar sua trajetória e seus valores, ela também ressalta novamente que sua caminhada é guiada pela fé, afirmando que tudo o que fez e continua fazendo está fundamentado em sua crença cristã.
(*) Isabel Fonseca é estagiária de jornalismo sob supervisão do jornalista Gilson Rocha.
Fonte: Margareth Torres
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