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Escala 6x1 ou 5x2?

Trabalhadores de Teresina opinam sobre mudança da jornada de trabalho; escala 5x2

Debate sobre possível mudança no modelo de jornada movimenta discussões entre brasileiros e divide opiniões entre trabalhadores

Por Natalia Costa

Segunda - 16/03/2026 às 12:54



Foto: Piauí Hoje Estudante Anderson Rodrigo; eletricista Gabriel Lima; vendedora de livros Núbia Lima; funcionária pública Andreia Inarili
Estudante Anderson Rodrigo; eletricista Gabriel Lima; vendedora de livros Núbia Lima; funcionária pública Andreia Inarili

Desde o ano passado, a substituição da jornada de trabalho 6x1 pela 5x2 tem gerado debate entre os brasileiros. Qual é a melhor jornada de trabalho para o país? O que os trabalhadores pensam sobre esse assunto? Eles sabem a diferença entre as duas jornadas de trabalho?

A equipe do Portal Piauí Hoje foi às ruas para saber a opinião dos teresinenses e as respostas foram diversas. O estudante Anderson Rodrigo da Silva, disse que prefere a escala 0 x 7, ou seja, não trabalhar e apenas ganhar dinheiro."Ganhar dinheiro sem trabalhar. Eu tenho muita preguiça de pegar ônibus todo dia com um monte de gente. Eu quero é ganhar dinheiro fácil", declarou.

 Estudante Anderson Rodrigo da Silva| Foto: Piauí Hoje

A vendedora de livros Núbia Lima afirmou que não sabia o significado das escalas de trabalho. Após a explicação da nossa equipe, ela disse preferir o modelo 6x1, já que atua com vendas e depende diretamente do volume de trabalho para aumentar a renda.Vendedora de livros Núbia Lima | Foto: Piauí Hoje

A jornada 5x2 não é muito boa para quem depende de vendas como eu. Para mim quanto mais trabalhar melhor. A 6 por 1 é melhor, eu trabalho de segunda a sábado.

A funcionária pública Andreia Inarili prefere a escala 5x2 pois é dona de casa e precisa de tempo para cuidar dos filhos e netos. "Porque a gente que é dona de casa, tem filho, tem neto. Tem que ter tempo pra você resolver os seus problemas de saúde. É bom ter dois dias de folga pra poder resolver os seus problemas pessoais", afirmou.Funcionária pública Andreia Inarili | Foto: Piauí Hoje

Já o eletricista Gabriel Lima defende a adoção da jornada de trabalho 5x2. Assim como Andreia, ele acredita que esse modelo garante mais tempo para resolver questões pessoais e também para descansar.

Eletricista Gabriel Lima | Foto: Piaui Hoje

A escala 5x2 é a escala que a gente gostaria de ter, pra ter mais tempo pra gente poder descansar, essas coisas, resolver alguns problemas.  Porque na escala 6x1 é meio difícil, porque a maioria das coisas funcionam na escala 6x1 e no horário que a gente tá no trabalho, então é meio difícil da gente conseguir resolver os problemas.

O que significa 6x1 e 5x2?

A jornada de trabalho 6x1 é um modelo em que o trabalhador cumpre seis dias de trabalho consecutivos e tem apenas um dia de folga na semana. Esse formato é bastante comum em setores como comércio, supermercados, restaurantes, hotéis e serviços em geral. 

Normalmente, o funcionário trabalha de segunda a sábado ou em escala que pode incluir domingos, desde que haja um dia de descanso semanal. A carga horária costuma seguir o limite previsto na legislação brasileira, que é de até 44 horas semanais, distribuídas nesses seis dias.

Já a jornada 5x2 funciona de forma diferente. Nesse modelo, o trabalhador atua cinco dias na semana e tem dois dias de descanso, que geralmente são sábado e domingo, embora também possam variar dependendo da empresa ou do setor. Essa é uma escala comum em atividades administrativas e escritórios. 

A principal diferença entre os dois modelos está na quantidade de dias de descanso. Enquanto na escala 6x1 o trabalhador tem apenas um dia de folga, na escala 5x2 ele tem dois dias de descanso por semana, o que é apontado como um fator que contribui para mais tempo de lazer, convivência familiar e recuperação física. 

Por outro lado, alguns setores defendem a escala 6x1 por facilitar a organização de atividades que funcionam todos os dias, como comércio e serviços.

Mais de 70% dos brasileiros apoiam fim da escala 6x1

Uma pesquisa nacional realizada pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados revela que a maioria dos brasileiros é favorável à ampliação do descanso semanal e ao fim da escala 6x1. De acordo com o levantamento, 84% defendem que os trabalhadores tenham, no mínimo, dois dias de folga por semana.

O estudo foi realizado entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro, nas 27 unidades da Federação, com 2.021 entrevistados acima de 16 anos. Segundo os dados, 73% apoiam o fim da escala 6x1, desde que não haja redução de salário.

Quando questionados de forma geral, 63% afirmaram ser favoráveis ao fim da escala 6x1. No entanto, ao considerar a possibilidade de redução salarial, o apoio diminui significativamente. Apenas 28% mantêm posição favorável caso haja corte na remuneração. Outros 40% concordam com o fim da jornada somente se os salários forem preservados.

Entre os 22% que se declararam contrários à proposta, parte admite rever a posição caso não haja impacto financeiro. Desses, 10% disseram que poderiam apoiar a mudança se os rendimentos fossem mantidos.

Fim da jornada 6x1 é prioridade do governo Lula

Presidente Lula | Foto: reprodução

O governo Lula trata como prioridade para este ano de 2026 a aprovação do projeto que põe fim à jornada de trabalho 6x1. A declaração foi feita na abertura do ano legislativo, em 2 de fevereiro.

Nosso próximo desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família.

A tabela abaixo mostra a jornada semanal média de trabalho por país, com base em dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O brasileiro trabalha mais do que a média mundial dos países analisados.

Butão
54,4
Emirados Árabes Unidos
50,9
Catar
48
Índia
46,7
China
46,1
Colômbia
44,2
Turquia
43,9
México
43,7
Peru
43
África do Sul
42,6
Angola
41,4
Cuba
41
Chile
40,4
Rússia
39,2
Brasil
39
Venezuela
38,7
Coreia do Sul
38,6
Israel
38,5
Média mundial
38,2
Portugal
38,2
Estados Unidos
38
Uruguai
37,3
Argentina
37
Espanha
36,7
Japão
36,6
Islândia
36,3
Itália
36,3
França
35,9
Reino Unido
35,9
Suíça
35,7
Irlanda
35,6
Luxemburgo
35,6
Suécia
35,3
Bélgica
35
Finlândia
34,4
Alemanha
34,2
Dinamarca
33,9
Noruega
33,7
Áustria
33,5
Nova Zelândia
33
Austrália
32,3
Canadá
32,1
Etiópia
31,9
Países Baixos
31,6
Vanuatu
24,7

Entenda as propostas

Uma Proposta de Emenda a Constituição (PEC 148/2015) que visa diminuir a jornada de trabalho, já foi aprovada em 10 de dezembro de 2025 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com relatório do senador Rogério Carvalho (PT-SE). A proposta está pronta para ser votada no Plenário do Senado, o objetivo é aumentar de um para dois dias o descanso mínimo semanal, preferencialmente aos sábados e domingos. E diminuir de 44 para 36 horas o tempo máximo de trabalho semanal, sem contar horas extras.

Senador Rogério Carvalho (PT-SE) | Foto: reprodução/senado

De acordo com o texto, o fim da chamada escala 6x1 ocorrerá de forma gradual. No ano de publicação do texto, as regras atuais se manterão. Já no ano seguinte, o número de descansos semanais passará de um dia para dois dias na semana e a jornada começará a ser reduzida. Apenas seis anos depois os novos direitos estarão plenamente instituídos.  

O texto ainda precisa passar por duas votações no Plenário do Senado e mais duas votações na Câmara, com voto favorável de pelo menos 49 senadores e 308 deputados. Após a aprovação nas duas casas a PEC será promulgada e passar a valer.

Ainda não há definição sobre a proposta que vai a votação

Segundo o próprio relator, Rogério Carvalho (PT-SE), o Palácio do Planalto deve enviar um novo projeto de lei em regime de urgência constitucional para acelerar a tramitação. 

Na abertura dos trabalhos legislativos na segunda-feira (2) ele defendeu a redução da jornada, que deverá beneficiar milhões de pessoas.

É o projeto que mais vai mexer com a vida dos brasileiros. Serão 38 milhões de trabalhadores [contratados pela Consolidação das Leis do Trabalho — CLT] beneficiados. Sem contar os 120 milhões de brasileiros que, de alguma forma, terão ganho com a redução da jornada.

Mesmo salário

Os empregadores não poderão reduzir a remuneração do trabalhador como forma de compensar os dois de descanso.

Mesmo após a transição, será mantido o limite de oito horas por dia, na jornada normal. No entanto, futuros acordos trabalhistas poderão alterar o tempo de trabalho para ajustá-los ao teto final de 36 horas semanais. 

O expediente poderia ser, por exemplo:

  • oito horas de segunda-feira à quinta-feira, e quatro horas, na sexta-feira;
  • sete horas e 12 minutos de segunda-feira à sexta-feira, entre outras alternativas.

A PEC mantém a possibilidade de compensar horários e reduzir as jornadas por meio de acordos de trabalho, como a Constituição já prevê.

Impacto financeiro

No dia da aprovação do texto na CCJ, o senador Izalci Lucas (PL-DF) afirmou em Plenário que a medida poderá trazer efeitos negativos na economia que, para ele, ainda não foram considerados.

O que custa isso? Quem é que paga essa conta? Acho que essas pessoas não fazem conta, acham que o dinheiro só cai do céu. Eu fico imaginando as pequenas empresas, que têm um, dois funcionários.

Senador Izalci Lucas (PL-DF) | Foto: reprodução/PL 

Beneficiados

Os contratados pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) a serem beneficiados representam 37% das pessoas que declararam ter alguma ocupação em 2024, segundo uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) citada na justificativa do relatório aprovado na CCJ.

Também terão direito à redução da jornada:

  • servidores públicos;
  • empregadas domésticas;
  • trabalhadores de portos e 
  • outros trabalhadores avulsos.

Contratados como pessoas jurídicas não terão o direito à nova jornada. No entanto, tanto esses como os trabalhadores informais terão a vantagem de um novo padrão no mercado de trabalho para se espelhar, segundo o relatório.

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